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quimica.ufsc entrevista:

Cristiano e Vanessa, um casal de químicos da UFSC que faz doutorado na França!


Nesta edição, a quimica.ufsc entrevista um simpático casal de estudantes que vive atualmente em Bordeaux, na França. A história de Cristiano e Vanessa é muito parecida: ambos vieram de cidades do interior, pequenas, e ambos também formaram-se na UFSC. Cristiano e Vanessa também fizeram seus mestrados em nosso curso, aqui em Florianópolis. E, agora, os dois fazem o doutorado pleno no exterior: na mesma universidade e, não obstante, no mesmo laboratório. Lá, fazem pesquisa de ponta, aqueles tópicos de deixar qualquer brasileiro mortinho de inveja e de cabelo em pé. A quimica.ufsc foi até Bordeaux e encontrou o casal, que vai muito bem, obrigado: com um lindo apartamento, automóvel, dois laptops e todos os confortos da vida moderna, Cristiano e Vanessa conversaram com a quimica.ufsc.

Leia, a seguir, o extrato desta conversa:


1) O que os motivou a estudar na europa? E por que a França, em especial?

O objetivo de fazer o doutorado pleno no exterior surgira, na verdade, logo no início da graduação (um sonho!). Enquanto trabalhávamos para isto, tivemos a oportunidade de conhecer o Dr. R. BORSALI (França), através do Dr. V. Soldi (Brasil), no contexto de uma visita à UFSC. Numa discussão breve e objetiva, catalisada por um bom café expresso, decidimos que o LCPO/Univ. Bordeaux 1 seria um ponto forte tanto para a candidatura à bolsa, quanto para tese propriamente dita. Daí a escolha: França.Cristiano e Vanessa formaram-se na quimica.UFSC

2) Quais são as principais diferenças entre o sistema de ensino universitário
francês e brasileiro?


A grande diferença encontra-se na forma como a pós-graduação é conduzida na França. Enquanto o mestrado é predominantemente dedicado à formação teórica, o doutorado focaliza sobretudo o desenvolvimento do projeto da tese, com um número muito reduzido de disciplinas.

3) O que mais surpreende um brasileiro ao entrar em um laboratório francês?
Em primeiro lugar o que nos impressionou foi, obviamente, a infra-estrutura disponível (equipamentos, reagentes, espaço físico, etc...). Além disso, o que nos chamou muito a atenção foi a relação entre o número de funcionários permanentes do CNRS* (i.e. pesquisadores, técnicos, etc.) e o número de estudantes (doutorandos). Em termos quantitativos, no LCPO (Laboratoire de Chimie des Polymères Organiques) esta razão é de ~ 20/35, e num laboratório vizinho, o CRPP (Centre de Recherche Paul Pascal), ela aumenta para ~ 80/20.
A partir disto, pode-se concluir que o dinheiro investido pelo governo e pelas empresas em projetos de pesquisa faz a diferença de uma nação!.

*orgão equivalente ao CNPq no Brasil.


4) Como são recebidos e tratados os estudantes brasileiros que vêem estudar na
França?


De forma geral, são muito bem recebidos pelos pesquisadores/técnicos, etc. Quanto aos colegas estudantes, entretanto, nem sempre funciona assim. O saldo final é, entretanto, muito positivo.

5) Vocês acreditam que seria possível conduzir exatamente os mesmos tópicos de
pesquisa caso estivessem em um laboratório brasileiro?


Existem efetivamente vários laboratórios no Brasil com infra-estrutura adequeda para desenvolver nossos tópicos de pesquisa (síntese & físico-química de macromoléculas). Porém, ao nosso conhecimento, as atividades nesta área (principalmente na síntese) são modestas se levarmos em consideração a importância dos materiais polímeros para o nosso dia-a-dia e para o mercado brasileiro.
Nós esperamos contribuir com a implementação de técnicas experimentais recentes (engenharia macromolecular) quando retornarmos.

6) Quem paga suas bolsas de estudo? Foi fácil de conseguir este auxílio?

As nossas bolsas são pagas pela CAPES e CNPq. Nós havíamos obtido respostas positivas também no Progama AlBan (Comunidade Européia), mas optamos pelas bolsas do Governo Brasileiro por diversos motivos. A parte mais importante para conseguir os auxílios foi a preparação cuidadosa da candidatura (projeto/plano de estudos/justificativas da necessidade de estudo no exterior/cartas/ tradução de documentos,etc). Portanto, muitos dias/meses de trabalho! A escolha de um laboratório de excelência na área, e de um orientadorer renomado é fundamental para o sucesso da proposta.

Contrariamente ao que se pensa, a demanda por bolsas de doutorado pleno no exterior é baixa!


7) Mesmo morando na França, o inglês é - na sua opinião - fundamental a um
cientista?

Inglês é a língua da ciência, portanto indispensável.

8) Vocês observaram algum contraste da França em relação ao Brasil?

Sem obviamente entrar no mérito da discussão acerca das razões pelas quais a França é hoje um país de primeiro mundo e o Brasil de terceiro, algumas situações do dia-a-dia marcam os contrastes. Um ponto flagrante é hábito da leitura, e portanto tudo o que decorre da mesma. Enquanto no tramway (um espécie de metrô) que pegamos para ir ao laboratório praticamente todos leêm jornais (que por sua vez são distribuidos gratuitamente) ou livros, no Brasil esta cena é muito mais rara, e às vezes se é considerado um nerd. Os tramways, eles, não têm catracas e/ou cobradores, mas têm horários bem determinados e preços atraentes para jovens de < 28 anos. Em seguida, a connectividade é claramente superior. Atualmente, ligando-se um dispositivo à linha telefônica, tem-se internet 24Mbit/s, telefone gratuito na França para o Exterior (exceto alguns países como o Brasil) e ~ 250 canais de TV qualidade digital. Isto custa 29,99/mês (www.free.fr). Outro ponto interessante: fazer compras no supermercado não é mais sinônimo de filas no caixa. Agora, com um simples cartão de fidelidade de 2 cm x 5 cm, pega-se (num distribuidor automático, naturalmente) um leitor de código de barras (scanner), com o qual registrar-se-á os items que forem colocados no carrinho do supermercado. Na saída, em menos de 30s, o operador recuperará o valor acumulado e cobrará as compras. Uma simples fiscalização aleatória se faz de tempos em tempos.!!!!

Poderíamos citar vários outros casos, mas isto implicaria igualmente no recíproco, visto que o Brasil tem pontos extremamente fortes. Talvez um livro....


9) Sua qualidade de vida seria a mesma caso ambos estivessem fazendo doutorado
no Brasil?


Certamente não. O poder aquisitivo de qualquer doutorando na França é muito superior àquele de um doutorando no Brasil. Porém, é necessário registrar que nós recebemos um valor inferior ao salário mínimo francês (o SMIC)!!! Mesmo assim, a qualidade de vida ainda é, no nosso conceito, superior.

10) O que vocês têm a dizer a um leitor da quimica.ufsc que esteja
pensando em ir estudar na europa? o que ele deve fazer? quais são os
procedimentos? Como a experiência de vocês pode servir para este leitor?

Primeiramente, se estiver pensando em estudar na europa, nos diriamos: tu DEVES ir. Em seguida, recomendamos prestar muita atenção nas deadlines das diveras agências de fomento, e não deixar para o ultimo micro-segundo. Verificar o procedimento burocrático para ser aceito pela universidade de destino é essencial para a implementação da bolsa.

__________
de Bordeaux, a 28.março.2006

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