
O
comportamento dos gases reais parece obedecer muito bem as
leis empíricas dos gases ideais nas condições
ambientais. Isto porque a pressão atmosférica
é baixa. Mas, em condições mais extremas,
de elevadas pressões ou baixas temperaturas, o comportamento
foge muito do previsto pela lei dos gases ideais.
A causa disso pode ser ao menos uma das 3 propriedades que
são exclusivas dos gases reais:
(a)
as partículas dos gases reais têm volume
não negligenciável
(b) as forças atrativas e repulsivas
existem e influenciam nos valores de V e p;
(c)
os gases reais podem mudar de estado físico
para uma fase condensada.
Uma
forma de acompanhar o desvio da idealidade de um gás
real é o parâmetro Z, ou fator
de compressibilidade Z, que é a razão
entre o volume real e o volume que seria ocupado caso fosse
um gás ideal nas mesmas condições de
(T,p), e é definido pela equação abaixo:

Onde
Vm = Volume molar
do gás real e
V°m = volume molar
do gás ideal (ou RT/p).
Se
o desvio da idealidade for nulo, então Vm
= V°me Z=1; se o volume
molar do gás real for menor do que o volume molar do
gás ideal, então Z<1;
se Z>1, significa que o volume
real foi maior do que o ideal.
A
figura ao lado ilustra experimentos onde
Z foi medido
para vários gases em função da pressão.
A primeira observação, é de que o valor
de Z tende a 1 (para todos os gases) quando a pressão
tende a zero. Isto é, um gás
a baixa pressão tem comportamento quase ideal. A explicação
pode ter origem na teoria cinética molecular dos gases
(KMT): a baixas pressões, o valor de
l (caminho médio
percorrido por uma molécula antes de uma colisão)
é bastante alto. Isto faz com que o gás
atenda a um dos quisitos da idealidade (espaço entre
as partículas muito maior do que tamanho destas).
Forças
atrativas e repulsivas |
O
resultado das forças atrativas (bolas vermelhas
atraem a verde) é de diminuir tanto a pressão
como o volume do gás.

O efeito de que as moléculas do gás real
têm volume e forças repulsivas é
de aumentar a pressão e volume do gás. |
Outra
observação importante: quando
a pressão é bastante alta, todos os gases têm
Z>1, indicando o domínio
das forças repulsivas. De acordo com
a KMT (vide páginas anteriores),com aumento da pressão,
o caminho l
diminui e a frequência de colisões z
aumenta. As forças repulsivas
forçam o gás a tomar um volume pouco maior do
que aquele esperado para o gás ideal (onde as forças
repulsivas não existem).
Já
em pressões intermediárias,
o valor de Z<1 indica que o domínio é
das forças atrativas. A atração
mútua exercida pelas moléculas fazem o volume
"encolher", ficando menor em comparação
ao volume ideal.
Situação
Ideal |
Situação
não-Ideal |

>pressão baixa
>temperatura alta
|

>alta pressão
>temperatura baixa |
Outra
propriedade dos gases reais é a capacidade de se condensarem,
para formar um líquido ou um sólido. O
aumento da pressão ou a diminuição da
temperatura pode provocar a condensação do gás.
A
figura ao lado ilustra experimentos
onde o volume foi medido para pressões diferentes do
gás CO2, em várias temperaturas.
As isotermas de temperatura elevada em muito se assemelham
às isotermas de Boyle. Mas a medida em que a temperatura
é diminuida, um fato muito estranho acontece: A isoterma
de 20°C, mostra que, do ponto C até o
ponto E, a diminuição de volume ocorre sem nenhum
aumento da pressão; isto porque
o gás está se condensando. Como
o líquido é muito mais denso, o volume diminui.
Após o ponto E, qualquer diminuição do
volume requer quantidade infinita de pressão; a compressibilidade
do líquido é muito baixa.
Mas
na temperatura de 31,04°C,
a condensação deixa de existir e o gás
não pode ser mais liquefeito pelo simples aumento da
pressão. Esta é a Temperatura
Crítica ( Tc ) do gás. A
partir desta temperatura, o gás não pode ser
liquefeito e é chamado de gás permanente.

Acima
da temperatura crítica, o gás
não pode ser mais liquefeito. Como nesta temperatura
o gás tem propriedades distintas, é chamado
de fluído supercrítico.
É o que vemos na terceira fotografia do conjunto acima:
a interface líquido-vapor desapareceu. Atualmente,
os fluídos supercríticos
são muito empregados na indústria química.
O CO2 supercrítico, por exemplo, é
usado na extração da cafeína
para o preparo do café descafeinado.
Descobertos
os devios da idealidade,
muitos foram os físcos, matemáticos e físico-químicos
que tentaram descrever uma nova equação de estado
para gases reais. A mais elegante e famosa delas, sem dúvida,
é a Equação de
Estado dos Gases Reais de van der Waals.

Johannes
D. van der Waals propôs uma modificação
da lei geral dos gases, levando em conta o tamanho
das partículas e as interações
intermoleculares.
Esta
equação foi proposta em sua tese de doutorado,
em 1873. Basicamente, apenas duas correções
foram feitas: o termo +a(n/V)1/2
corrige a diminuição da pressão devido a forças atrativas,
enquanto que o termo -b corrige
o volume devido ao tamanho das moléculas do gás real.
Os
termos a e b são chamados coeficientes
de van der Waals, e são determinados
experimentalmente pelo ajuste de isotermas de van der Waals
com dados experimentais. A tabela abaixo apresenta
os valores dos coeficientes de van der Waals para alguns gases.

Acima
dissemos que o coeficiente a
está associado às forças intermoleculares
presentes no gás real. Compare os valores de a
dos gases He e H2O. O
coeficiente a da água é mais de 100
vezes maior do que o do hélio. Isto
indica uma interação intermolecular muito mais
forte nas moléculas de H2O do
que nos átomos de He. Da mesma forma, se compararmos o coeficiente
b CO2
e H2, veremos que o b
é maior para o gás carbônico,
que obviamente possui uma molécula também maior.
Como falamos anteriormente, o b
está relacionado ao tamanho das
moléculas.
  |
A
equação de van der Waals é magnífica
não somente por sua simplicidade, mas também
pela capacidade de prever o comportamento dos gases reais
com fidelidade, prevendo até mesmo o fenômeno
da condensação e a temperatura crítica.
Quando isotermas p x V são traçadas
pela equação de van der Waals
(vide figuras acima), surgem ondulações
nas curvas nas temperaturas inferiores à temperatura
crítica. Estas ondulações são
irreais, e representam o equilíbrio líquido
- vapor que se estabelece nestas condições
de p e T. Normalmente, são substituidas por linhas
retas de acordo com a construção matemática
de Maxwell.
A
equação de van der Waals pode ser expressa em
termos de Volume molar (V/n), resultando na seguinte expressão:
Perceba alguns significados desta equação:
(a)
Em T elevada e Vm
grande, as isotermas de vdW coincidem com as isotermas
do gás perfeito.
Quando T é alta,
RT é muito
grande se comparado ao valor do segundo termo da equação
de vdW; se o Vm for grande, Vm
>> b
no primeiro termo.
(b) Os líquidos e os gases
coexistem quando os efeitos de coesão e os de dispersão
estão equilibrados. As ondulações
ocorrem quando os dois termos da equação tem
grandezas semelhantes. O primeiro provém da energia
cinética e interações
repulsivas; o segundo representa o efeito das
interações atrativas.
(c)
As coordenadas críticas podem ser obtidas através
das constantes de van der Waals. As isotermas oscilam
quando T<Tc; quando T~Tc elas convergem e em T=Tc a curva
tem uma inflexão típica, com primeira e segunda
derivadas nulas. As coordenadas podem ser calculadas através
destas derivadas.
Assim, terminamos esta etapa da aula sobre
o estado gasoso. A seguir, elaboramos um rápido exame
para você testar seu aprendizado. Para seguir, use a
barra de navegação no topo da página.
|