Uma
das funções da Físico-Química
é a de, baseada em observações experimentais,
desenvolver modelos teóricos que justifiquem
estas observações. Além de explicar fatos
conhecidos, tais modelos devem prever o comportamento
do sistema em situações diferentes,
passíveis de comprovação experimental.
É o que faz o modelo cinético dos gases, também
conhecido como Teoria Cinética Molecular dos
Gases (KMT).
Até
então, vimos propriedades dos gases sempre com enfoque
macroscópico. A KMT surgiu no final do século
XIX, quando a teoria atômica já
estava bem difundida. E este modelo tenta explicar
o comportamento macroscópico dos gases com base nas
propriedades microscópicas da matéria.
Em outras palavras, o modelo caracteriza, a partir das propriedades
individuais das partículas que compões o gás,
o comportamento esperado para uma grande quantidade deste.
Como
vimos anteriormente, este modelo assume que (I)
um gás é feito por partículas que
estão em constante movimento aleatório;
(II) o tamanho
das partículas é negligenciável se comparado
à distância entre elas; (III)
não há forças atrativas ou repulsivas
entre as partículas ou mesmo entre estas e as paredes
do vaso que as contém; (IV)
as colisões entre as partículas são
perfeitamente elásticas; (V)
a energia total de uma amostra de gás
é igual à soma das energias cinéticas
individuais de cada partícula presente e a energia
cinética média das partículas é
proporcional à temperatura do gás.
Vamos
ilustrar como o modelo define algumas propriedades macroscópicas
dos gases que já conhecemos:
c,
avelocidade média do gás |

Numa amostra de gás, as moléculas se movem
em sentidos e velocidades aleatórias. Por isso,
a velocidade média precisa se definida como a
média dos módulos das velocidades individuais,
ou a raiz quadrada do somatório dos quadrados
das velocidades de cada uma das moléculas dividida
pelo número de moléculas, tal como mostra
a equação abaixo:

Desta forma, a energia cinética
média das partículas é dada por:

|
A
hipótese de que as forças atrativas e repulsivas
são nulas implica que a energia potencial das
moléculas (a energia devida a suas posições)
independe da separação entre estas e, portanto,
pode ser considerada nula. Por isso, a energia
de uma amostra de gás é simplesmente a soma
das energias cinéticas de cada uma das partículas.
Então, quanto mais rápido se moverem as partículas,
maior será a energia total do gás. Ocorre que
a velocidade média das partículas (veremos a
seguir) é diretamente proporcional à temperatura
da amostra. Portanto, podemos concluir: um
aumento de temperatura provoca um aumento na velocidade média
das partículas e, consequentemente, um aumento na energia
do gás. Logo, a energia de um gás
é proporcional a sua temperatura.
Uma
outra forma de ver esta relação é seguinte:
para a KMT, a temperatura de um gás
é, na verdade, uma escala que indica a velocidade média
das moléculas presentes na amostra.
Isto significa que se dois gases estão
em equilíbrio térmico, a energia cinética
média de ambos é também igual.
Veremos adiante que isto é a causa das diferenças
nas velocidades de efusão e difusão dos gases.
Em
uma amostra de gás a uma determinada temperatura, sempre
há moléculas muito rápidas e também
moléculas muito lentas, pois o movimento é aleatório.
O modelo cinético prevê
uma curva de distribuição de velocidades das
partículas em função da temperatura.
A
figura ao lado trás 3 curvas de distribuição
de velocidades. As duas primeiras são da mesma
substância, em duas temperaturas diferentes. Repare
que quando a temperatura aumenta, a velocidade média
do oxigênio aumenta também. Entretanto,
há sempre moléculas lentas, mesmo em temperaturas
elevadas.
Outra
constatação surge quando comparamos as curvas
para dois gases diferentes na mesma temperatura. O
gás hidrogênio apresenta uma distribuição
indicando velocidade média maior do que a do gás
oxigênio. Isto porque a massa molar do hidrogênio
é menor.
Para
o modelo cinético dos gases, a
pressão é fruto das colisões das moléculas
do gás contra as paredes do recipiente.
Cada colisão dá uma pequena força contra
a parede do recipiente; mas, como ocorrem bilhões de
colisões a cada segundo, as paredes experimentam uma
força constante, resultando em uma pressão estável
do gás. De acordo com este modelo, a pressão
pode ser descrita da seguinte maneira:

Esta
equação se assemelha à equação
dos gases, pois podemos expressá-la como pV=nMc2/3.
Desta maneira, como sabemos que pV=nRT, podemos dizer que
nRT = nMc2/3.
Com isso, obtemos uma expressão para a velocidade
média c:
Esta
expressão nos diz que a velocidade
média c é proporcional à raiz quadrada
da temperatura, e c diminui com o aumento
da massa molar. Isto ocorre na mesma razão (M)1/2
que o observado empiricamente por Graham.
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Efusão e Difusão de Gases |
No
experimento acima, ocorre algo bizarro: após
a abertura da válvula, o balão murcho
fica ainda mais murcho e o balão cheio ainda
mais cheio. Isto é uma consequência da
lei de Graham: ocorre porque o gás do balão
azul é o hélio, de menor massa molar que
o gás do balão vermelho, o nitrogênio.
Logo, a velocidade de efusão do gás do
balão azul através da válvula é
maior do que a do gás do balão vermelho.
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A
observação empírica feita por Graham
dizia que a velocidade de difusão
(passagem do gás para outro meio) ou efusão
(passagem do gás por um orifício ou barreira)
de um gás era inversamente proporcional ao quadrado
de sua massa molar. Ou seja, quanto mais pesado
for o gás, menor sua velocidade de efusão. O
modelo cinético chega quantitavamente ao mesmo resultado.
Anteriormente,
falamos que se dois gases estão em equilíbrio
térmico, suas energias cinéticas médias
sao iguais. Então, vamos comparar as velocidades de
efusão de dois gases na mesma temperatura, o gás
(A) e o gás (B).
Com base na definição de energia
cinética no quadro acima, temos que
m(A).c(A)2
= m(B).c(B)2
Portanto, a relação
entre as velocidades de A/B pode ser dada por
c(A)/c(B)
= (m(B)/m(A))1/2
Isto
é, se a massa molar de B for maior do que a massa molar
de A, a velocidade de A será maior (razão maior
do que 1) do que a velocidade de B.
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l e z
: Colisões Moleculares |
Como
falamos anteriormente, o modelo cinético afirma que
as moléculas do gás colidem (elasticamente)
com outras e com as paredes do recipiente. Veremos agora que
o modelo oferece ferramentas quantitativas para avaliar as
colisões, através de parâmetros como o
caminho médio percorrido pelas moléculas até
uma colisão (
l ), a frequência de colisões
( z
) e o intervalo médio de tempo entre duas colisões
(1/z).
De acordo com a KMT, o caminho livre e a frequência
de colisões são definidos como:
.................  |
Onde
s é a seção
transversal de choque da molécula (pd2).
De acordo com estas equações, podemos perceber
que:
a)
l é
inversamente proporcional a p: quanto
maior a pressão, menor é a distância percorrida
por uma molécula antes da colisão;
b)
l é
inversamente proporcional a s:
moléculas menores percorrem distâncias maiores
antes da colisão;
c)
z é proporcional a p:
em um gás pressurizado, a frequência de choques
é maior.
Outra
observação: para um gás real ter comportamento
de gás perfeito (ou ideal) é necessário
um requisito básico: l
>> s.
Desta
maneira, o espaço entre as partículas é
muito maior do que o tamanho das mesmas.
A
seguir, nossa aula prossegue com os gases reais. Veremos que
alguns ajustes são necessários às equações
que conhecemos para que elas funcionem com todos os gases
em todas as condições. E estudaremos os desvios
da idealidade apresentados por alguns gases. Para seguir adiante,
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