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O
que mantém as moléculas
unidas nos estados líquido e sólido? Que
força faz a água, contrariando a gravidade, subir
desde a raiz até o topo da árvore mais alta? Como
alguns insetos podem andar sobre a água? Por que
o DNA tem a configuração
em forma de hélice? Elas estão por toda a
parte: QMCWEB apresenta, as Forças
Intermoleculares.
A força está
com você.
Todos
os objetos ao nosso redor são feitos de átomos.
Estes átomos, algumas vezes, combinam-se e formam moléculas:
são unidos através da formação de
ligações covalentes. Em outras palavras, alguns
elétrons, que antes estavam em orbitais atômicos
passam a formar orbitais moleculares. Mas as moléculas
são discretas: a água, por exemplo, consiste em
pequenos grupos de 3 átomos, sendo um do elemento oxigênio
que liga-se a dois átomos de hidrogênio. A ligação
covalente, entretanto, é intramolecular: apenas une os
átomos que formam a molécula. O que impede, entretanto,
que todas as moléculas em um copo de água se difundam
pelo meio, instantaneamente, deixando o copo vazio? O que mantém
elas unidas? Como elas formam um objeto sólido, compacto,
quando resfriadas?
As forças que existem entre as moléculas - forças
intermoleculares - não são tão fortes como
as ligações iônicas ou covalentes, mas são
muito importantes; sobretudo quando se deseja explicar as propriedades
macroscópicas da substância. E são estas
forças as responsáveis pela existência de
3 estados físicos. Sem elas, só existiriam gases.
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QMCWEB://Biografia
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Johannes Diederik van der Waals
Nasceu: Novembro 23, 1837, Leiden, Neth.
Morreu: Março 9, 1923, Amsterdam
Um físico alemão que, em 1910,
recebeu um prêmio Nobel em Física pela
sua pesquisa com os estados gasoso e líquido
da matéria. Seu trabalho possibilitou o estudo
de temperaturas próximo ao zero absoluto.
Um auto-didata, Waals ingressou na Universidade de
Leiden, e em 1873 escreveu uma tese de doutorado entitulada
"Sobre a Continuidade do Estado Líquido
e Gasoso".
Ele observou que a equação geral dos
gases ideais não correspondia ao observado
em gases reais. O erro era assumir que, segundo a
teoria cinética dos gases ideiais, não
existissem forças atrativas e/ou repulsivas
entre as partículas do gás e que o volume
de cada partícula era zero. Waals levou estes
erros em conta e introduziu, em 1881, à famosa
equação PV=nRT mais dois parâmetros,
relacionados ao tamanho e às forças
intermoleculares. Ele reescreveu a equação
dos gases ideiais e publicou uma nova equação,
conhecida como equação de van der Waals
para os gases reais.
Foi
este trabalho que lhe garantiu o Prêmio Nobel,
e que também permitiu James Dewar e Heike K.
Onnes alcaçarem a liquefação
do gás hidrogênio e hélio.
Em 1877, van der Waals começou a trabalhar
como professor de física da Universidade de
Amsterdam, posto que ocupou até 1907. As forças
intermoleculares são também chamadas
de forças de van der Waals, em sua homenagem.
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Aprendemos, desde o ensino médio, a descrever um gás
pela equação PV=nRT. Esta, entretanto, é
uma equação que funciona bem somente para gases
ideais - gases idealizados, que não existem na realidade,
e obedecem a todos os postulados da teoria cinética molecular
para os gases ideais. Gases formados por partículas sem
tamanho e sem atração ou repulsão entre si.
Um gás ideal nunca se liquefaz. Entretanto, basta baixar
a temperatura e/ou aumentar a pressão sobre um gás
real que este logo passa para o estado líquido. O físico
alemão van der Waals corrigiu esta equação
em 1881, incorporando dois parâmetros: um deles que lida
justamente com as interações intermoleculares.
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A
equação de van der Waals
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Em
1873, J.D. van der Waals propôs sua equação.
No gás real, a pressão é menor
do que a prevista pela lei ideal: culpa das forças
atrativas intermoleculares. Por isso, a pressão
é corrigida pela expressão a/V2.
Da mesma forma, moléculas reais tem volume. O
termo b é uma função do diâmetro
esférico da molécula do gás, conhecido
como diâmetro de van der Waals. Para 1 mol de
gás (n=1), a equação é:
E,
para n moles de gás, a equação
genérica é:
Abaixo
estão alguns valores para a e b
de alguns gases. Observe como os gases hidrogênio,
hélio e neônio apresentam valores muito
próximos a zero. Isto porque eles quase não
exibem interações intermoleculares no
estado gasoso - seu comportamento é quase ideal.
| Gás |
a |
b |
| H2 |
0.2444 |
0.02661 |
| O2 |
1.360 |
0.03183 |
| N2 |
1.390 |
0.03913 |
| CO2 |
3.592 |
0.04267 |
| Cl2 |
6.493 |
0.05622 |
| Ne |
0.2107 |
0.01709 |
| He |
0.03412 |
0.02370 |
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As forças intermoleculares têm origem eletrônica:
surgem de uma atração eletrostática entre
nuvens de elétrons e núcleos atômicos. São
fracas, se comparadas às ligações covalentes
ou iônicas. Mas forte o suficiente para sustentar uma lagartixa
no teto da sala (veja quadro).
As
forças de van der Waals, como também são
conhecidas as forças intermoleculares, podem surgir de
3 fontes. Em primeiro, as moléculas de alguns materiais,
embora eletricamente neutras, podem possuir um dipolo elétrico
permanente. Devido a alguma distorção na distribuição
da carga elétrica, um lado da molécula e ligeiramente
mais "positivo" e o outro é ligeiramente mais
"negativo". A tendência é destas moléculas
se alinharem, e interagirem umas com as outras, por atração
eletrostática entre os dipolos opostos. Esta interação
é chamada de dipolo-dipolo.
Em
segundo, a presença de moléculas que tem dipolos
permanentes podem distorcer a distribuição de carga
elétrica em outras moléculas vizinhas, mesmo as
que não possuem dipolos (apolares), através de uma
polarização induzida. Esta interação
é chamada de dipolo-dipolo induzido.
E,
em terceiro, mesmo em moléculas que não possuem
momento de dipolo permanente (e.g., no gás nobre neônio
ou no líquido orgânico benzeno) existe uma força
de atração (do contrário nem o benzeno ou
neônio poderiam ser liquefeitos). A
natureza destas forças requer a mecânica quântica
para sua correta descrição, mas foi primeiramente
reconhecida pelo físico polonês Fritz London,
que relacionou-as com o movimento eletrônico nas moléculas.
London sugeriu que, em um determinado instante, o centro de carga
negativa dos elétrons e de carga positiva do núcleo
atômico poderia não coincidir. Esta flutuação
eletrônica poderia transformar as moléculas apolares,
tal como o benzeno, em dipolos tempo-dependentes, mesmo que, após
um certo intervalo de tempo, a polarização média
seja zero. Estes dipolos instantâneos não podem orientar-se
para um alinhamento de suas moléculas, mas eles podem induzir
a polarização das moléculas adjacentes, resultando
em forças atrativas. Estas forças são
conhecidas como forças
de dispersão (ou forças de
London), e estão presentes em todas as moléculas
apolares e, algumas vezes, mesmo entre moléculas polares.
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Lagartixa
van der Waals
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Uma
dúvida cruel tem atormentado muitos cientistas:
como, de fato, a lagartixa consegue
caminhar pelas paredes, mesmo no teto?
Alguns sugeriram que suas patas possuissem microventosas.
Entretanto, todas as tentativas de se provar a existência
de tais ventosas falharam: as lagartixas possuem tal
comportamento mesmo sob vácuo ou sobre uma superfície
muito lisa e molhada.
Em 1960, o alemão Uwe Hiller sugeriu que um tipo
de força atrativa, entre as moléculas
da parede e as moléculas da pata da lagartixa,
fosse a responsável. Hiller sugeriu que estas
forças fossem as forças intermoleculares
de van der Waals. Tudo bem que elas mantenham moléculas
unidas, mas... uma lagartixa? Poucos deram crédito
à sugestão de Hiller. Até que,
em um exemplar recente da revista
Nature, Autumn escreveu o artigo "Full,
Adhesive force of a single gecko foot-hair"
(Autumn, K. et al., Nature 405, 681-685 (2000)),
trazendo evidências de que, de fato, são
forças intermoleculares as responsáveis
pela adesão da pata da lagartixa à parede.
Mais precisamente entre a superfície e as moléculas
dos "setae", pelos microscópicos
que cobrem as patas das lagartixas. |
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Algumas
moléculas, entretanto, exibem um tipo especial de interação
dipolo-dipolo. É o caso da água: olhe atentamente
para a figura abaixo. A temperatura de
ebulição do hidreto de oxigênio é muito
diferente de todos os outros hidretos dos elementos da família
do oxigênio. Exceto a água, todos parecem
seguir uma regra de que quanto menor a massa molecular, menor
é a temperatura de ebulição. Por esta regra
(que parece ser obedecida na família do carbono), a água
deveria ser, à temperatura ambiente, um gás, com
uma temperatua de ebulição bem abaixo de 0 oC.
Todos sabemos que, na verdade, a água é um líquido
com ponto de ebulição de +100 oC!

A
água, portanto, deve possuir um tipo de interação
diferenciado. O que acontece é que os hidrogênios
ligados ao oxigênio é que formam o lado "positivo"
do dipolo permanente desta molécula. O átomo de
hidrogênio é formado por apenas um próton
e um elétron. Como o elétron é fortemente
atraído pelo oxigênio, na água, este próton
encontra-se desprotegido. A água possui, então,
um dipolo bastante forte, com uma das cargas (positiva) bastante
localizada. Este
próton pode interagir com as regiões negativas (o
oxigênio) de outras moléculas de água, resultando
em uma forte rede de ligações intermoleculares.
Esta interação é chamada de ligação
hidrogênio, e ocorre entre átomos de hidrogênio
ligados a elementos como o oxigênio, flúor ou nitrogênio,
com átomos de O, N ou F de outras moléculas. Esta
interação é a mais intensa de todas as forças
intermoleculares.
Como
consequência das fortes interações intermoleculares,
a água apresenta algumas propriedades especiais. Alguns
insetos, por exemplo, podem andar sobre ela. Uma lâmina
de barbear, se colocada horizontalmente, também flutua
na água. Isto deve-se à tensão superficial
da água: uma propriedade que faz com o líquido
se comporte como se tivesse uma membrana elástica em
sua superfície. Este fenômeno pode ser observado
em quase todos os líquidos, e é o responsável
pela forma esférica de gotas ou bolhas do líquido.
A razão é que as moléculas de água
interagem muito mais fortemente com suas vizinhas do que com as
moléculas do ar, na interface. As moléculas que
estão no interior da gota, por exemplo, interagem com outras
moléculas em todas as direções; as moléculas
da superfície, por outro lado, interagem somente com moléculas
que estão nas suas laterais ou logo abaixo. Este
desbalanço de forças intermoleculares faz
com que estas moléculas, da superfície, sejam atraídas
para o interior do líquido. Para se remover estas moléculas
da superfície é necessário uma certa quantidade
mínima de energia - a tensão superficial. Para a
água, isto corresponde a 0,07275 joules/m2,
a 20oC. Líquidos orgânicos,
como o benzeno ou o tolueno, tem valores menores de tensão
superficial, já que suas interações intermoleculares
são mais fracas.

Todos sabemos que a água possui outra propriedade anômala:
o gelo bóia sobre a água líquida.
Isto porque a densidade do estado sólido, na água,
é menor do que no estado líquido. As ligações
hidrogênio, no estado sólido, conferem à água
uma organização reticular quase cristalina,
com um maior espaço entre as moléculas, ou seja,
uma menor densidade. A maioria das outras substâncias tem
um maior grau de compactação - uma maior densidade
- no estado sólido.
| ligação |
força |
magnitude
(KJ/mol) |
|
química
|
covalente
iônica
|
100-1000
100-1000
|
|
intermolecular
|
íon-dipolo
dipolo-dipolo
Dispersão
ligação-H
|
1-70
0.1-10
0.1-2
10-40
|
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As
forças intermoleculares são também responsáveis
pelas diferenças nas temperaturas de ebulição
de vários isômeros constitucionais orgânicos,
isto é, moléculas orgânicas que possuem
a mesma fórmula molecular (e, por consequência,
a mesma massa molar) mas tem pontos de ebulição
normal diferentes. O ponto de ebulição de um
líquido é definido como sendo a temperatura
na qual a pressão de vapor exercida pelo líquido
se iguala à pressão externa. A água,
ao nível do mar, tem uma pressão de vapor igual
a 1,00 atm somente a 100 oC.
É lógico se assumir que quanto mais forte for
a atração entre as moléculas, isto é,
quanto maior forem as forças intermoleculares, maior
também será a temperatura necessária
para a ebulição do líquido.
Observe, como exemplo, os dois isômeros para a fórmula
C5H12,
o n-pentano e o neo-pentano, ilustrados na figura ao lado.
Ambas as moléculas não possuem dipolo permanente
- são apolares. Então, ambas interagem, entre
si, via forças de dispersão (london). Mas o
que faz com que o n-pentano tenha uma temperatura de ebulição
bem maior do que o neo-pentano? Observe que, à
temperatura ambiente, o n-pentano é um líquido,
enquanto que o outro isômero é um gás!
Este caso ilustra uma propriedade das interações
intermoleculares: quanto maior for a área de contato
entre as moléculas, maior é a interação.
No caso no neo-pentano, a interação é
dificultada devido ao impedimento espacial provocado pelo
grupos -CH3. A polarização
induzida ocorre mais intensamente no caso da cadeia linear.
Uma
outra propriedade pode ser observada se acompanharmos a temperatura
de ebulição dos compostos ao lado. O éter
dimetílico, embora possua a maior massa molar, é
o que tem a menor Te (é um gás, à temperatura
ambiente). Tanto o metanol como a água são líquidos,
embora tenham massa molar menores. A água, a molécula
mais leve da série, tem a maior temperatura de ebulição.
Isto porque a água e o metanol interagem via ligação
hidrogênio - a mais forte das interações intermoleculares,
enquanto que o éter interage via dipolo-dipolo - não
possue hidrogênios ligados ao oxigênio. A água
possue dois hidrogênios ligados ao O - o que explica a sua
maior temperatura de ebulição, em relação
ao metanol,
que possui apenas um.
Como vemos, a substituição dos hidrogênios
da água por grupos -CH3
leva a compostos com menor temperatura de ebulição.
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QMCWEB://Biografia
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Fritz Wolfgang London
Nasceu: Março 7, 1900, Breslau, Alemanha.
Morreu: Março 30, 1954, Durham, EUA.
London foi educado nas universidades de Bonn, Frankfurt,
e Göttingen. Em Munich obteve seu Ph.D., em 1921.
Ele fo um pesquisador do instituto Rockfeller em Zurique
e um professor na Universidade de Berlin. Entre 1933
a 1936 ele trabalhou na Oxford University e, então,
se tornou o diretor de pesquisa da Universidade de Paris.
Em 1939, London imigrou para os Estados Unidos, onde
se tornou professor de química teórica
na Duke University, em Durham, N.C.. Em 1945, se tornou
um cidadão norte-americano. Entre suas publicações,
destacam-se dois volumes sobre Superfluídos (1950
e 1954).
A teoria das ligações entremoléculas
apolares marcou o início do tratamento moderno
de mecânica quântica da molécula
de hidrogênio, e é considerado um dos mais
importantes avanços na química moderna.
Juntamente com seu irmão, Heinz London, ele desenvolveu
a teoria fenomenológica da supercondutividade,
providenciando uma nova fundação na compreensão
das forças intermoleculares e clareando a conexão
entre fenômenos quânticos e muitos dos fatos
intrigantes da química. |
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Todas
as proteínas que compõe o nosso organismo são
constituídas por sequências de amino-ácidos,
ligados covalentemente. Estes compostos possuem grupos -OH
e -NH capazes de formar uma forte rede de ligações
intermoleculares. É isto que confere a estrutura terciária
das proteínas, isto é, a sua forma característica
de orientação espacial. Um outro exemlo é
o DNA de todos os humanos: sua forma de dupla-hélice
- é mantida graças às ligações
hidrogênio entre os grupos dos -OH e -NH das bases nitrogenadas
heterocíclicas que o compõe: GCAT.

Os
compostos orgânicos polares exibem, em geral, uma solubilidade
significativa em água. O açúcar é
um exemplo: é muito solúvel em água. Isto
deve-se à capacidade que as moléculas de água
têm de interagir com as moléculas da sacarose. A
solubilização também é um fenômeno
regido pelas interações intermoleculares: entre
as moléculas do soluto e as moléculas do solvente.
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