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QUALIDADE
EM
QUÍMICA ANALÍTICA:
VALOR
ou CUSTO?
Haidi D. Fiedler,
Departamento de Química, UFSC
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Sala Limpa
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Em
geral para laboratórios participantes de programas
de harmonização de metodologias analíticas
para determinação de elementos e compostos
inorgânicos e orgânicos em níveis-traço,
principalmente em amostras ambientais complexas, é
imprescindível a necessidade de ter-se as chamadas
salas ou câmaras limpas - internacionalmente
definida como uma sala na qual insuflamento, filtragem
e distribuição do ar, materiais de construção
e procedimentos operacionais correspondem a exigências
de controle na concentração de partículas
aero-transportadas a fim de atingir os níveis
de limpeza definidos pela última edição
da US Federal Standard 209 (padrão ISO).
O nível de contaminação da SALA
LIMPA, em termos de partículas, é
da ordem de um milhão de vezes menor que
aquela presente num ambiente natural. Assim, é
fácil de entender que uma SALA LIMPA é
fundamental para uma série de estudos e laboratórios
de pesquisa trabalhando na avaliação de
estudos de impacto ambiental de diverso tipos, como
por exemplo:
- programas
de harmonização de metodologias analíticas
aplicadas em amostras ambientais, como por exemplo:
controle de qualidade para análise de elementos-traço
em amostras ambientais, envolvendo especiação
química em águas, sedimentos, solos,
material particulado atmosférico etc;
- estudos
de contaminação de solos, sedimentos
e águas subterrâneas por resíduos
urbanos e industriais;
- programas
de monitoramento e controle da poluição
relacionados à contaminação por
mercúrio, arsênio e outros elementos
e/ou amostras de elevada volatilidade;
- laboratórios
envolvidos em sistemas metrológicos de proposição
de padrões de emissão de poluentes nos
diferentes compartimentos ambientais;
- realização
de exercícios de intercomparação
de resultados em diversas análises;
- segurança
da qualidade na abertura de amostras para determinação
de elementos-traço;
- segurança
da manutenção da qualidade dos materiais
de referência certificados, tanto na estocagem,
quanto na manipulação;
- programas
de tratamento e depuração de resíduos
contendo metais cancerígenos ou materiais extremamente
tóxicos.
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A
economia universalizada afetou diretamente o comércio
e a indústria de todos os países. Para
países ricos, industrializados e competitivos, nos setores
do comércio nacional e/ou internacional onde a química
se enquadra de diversas formas, a percepção das
vantagens técnicas e econômicas da busca de qualidade
está bem estabelecida. No Brasil, na prática,
a maioria das indústrias não está participando
deste movimento universalizado da busca da qualidade em química
analítica. Ainda, as indústrias que necessitam
empregar normas de qualidade em seus laboratórios químicos
não conseguem exigir que fornecedores de matérias
primas obedeçam as normas técnicas, seja pela
diversidade de compradores que não exigem tal condição,
seja pela simples impossibilidade técnica de fazê-lo.
Além disso, de forma geral, muitas indústrias
não dispõem de recursos humanos e financeiros
para participar das atividades da busca dos chamados "selos
verdes", que requerem um controle de qualidade efetivo
de seus processos produtivos, seguindo normatização
estabelecida internacionalmente. Um fator complicador adicional
é o temor de que maior qualidade represente um encarecimento
de seus produtos. No Brasil, a ABNT, contratada pela FINEP,
está desenvolvendo um selo verde nacional, cujos procedimentos
de concessão estão sendo aprimorados (ISO 14.000).

No
processo, também as indústrias buscam adotar
"tecnologias limpas" que envolvem iniciativas muito
diversas, porém pode-se dizer que todas utilizam o
estabelecimento de controles estatísticos e de mecanismos
cooperativos na gestão da produção, com
o propósito de eliminar desperdício de fatores,
tais como: tempo, recursos humanos ou matérias-primas.
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O
que é QUALIDADE?
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Cabe
lembrar a definição encontrada no dicionário:
"Propriedades (por exemplo: o peso, a cor, o sabor, etc..)
das coisas, capaz de distingui-las das outras e de lhes determinar
a natureza." Em uma escala de valores, qualidade permite
avaliar e, conseqüentemente, aprovar, aceitar ou recusar
qualquer coisa. Na prática, quase sempre existe uma
relação entre o preço e a qualidade do
produto. Entretanto, em química analítica esta
definição deve ser expandida. Assim, deve-se
perguntar porque você quer a análise e o que
você quer fazer com ela para então decidir como
você vai realizá-la. Qualidade
em laboratórios analíticos implica em resultados
que:
- alcançam
as necessidades específicas do cliente e para isso,
deve existir uma discussão prévia à
análise e, neste momento, deve-se ver o cliente como
mais um membro do laboratório;
- atraem
a confiança do cliente e de todos os que fazem uso
dos resultados;
- representa
valor e não custo.
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Segurança
da Qualidade
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É
um sistema de Boas Condutas no Laboratório, GLPs -
GOOD LABORATORY PRACTICE, projetado com diferentes planos
de atividades para assegurar que o programa de controle de
qualidade seja efetivo.
Esta preocupação iniciou há várias
décadas e deu origem no início dos anos 70 a
publicação pela Food and Drug Administration,
FDA/USA, do texto "Principles for Good Laboratory Practice".
Na Comunidade Européia, por mais de 30 anos que deseja-se
expressar um padrão uniforme para avaliar a qualidade
das pesquisas, sendo que em 1981 foi publicada oficialmente
e reconhecida pelos estados membros da OECD, Organization
for Economic Cooperation and Development, o texto "OECD Principles
of Good Laboratory Practice" cujas diretrizes foram adotadas
a partir de 1987.
De fato adotar o sistema de Boas Condutas no Laboratório,
GLPs é o início do processo de garantia de segurança
de qualidade dos dados analíticos, e está preocupado,
essencialmente, com o processo organizacional e as condições
nas quais os estudos laboratoriais são planejados,
realizados, monitorados, registrados e com relação
a apresentação dos relatórios.
O
principal objetivo da GLP é submeter dados confiáveis
/ seguros às autoridades que avaliam estes dados,
evitando sempre que possível experimentos desnecessários
com animais e recomendando metodologias adequadas para: i)
Controle de pessoal e organização do laboratório;
ii) programa de garantia da qualidade; iii) instalações,
equipamentos, materiais e reagentes; iv) sistemática
dos experimentos (protocolos); v) registros adequados de amostras
experimentais e padrões de referência; vi) procedimentos
de operação padronizados, incluindo precauções
em relação a segurança e saúde;
vii) descrição completa dos experimentos e justificativa
da escolha do método; viii) relatório dos resultados;
e ix) estocagem e manutenção de registros e
materiais.
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| Controle
de Qualidade |
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É
um sistema projetado para proporcionar um produto com qualidade.
Os fatores considerados mais relevantes para obter-se resultados
com qualidade assegurada, em relação a análises
e materiais específicos para o controle da qualidade
do trabalho são:
- conhecimento
preciso das necessidades do cliente;
- qual
é o nível de incerteza aceitável;
- método
correto de amostragem (representatividade da amostra);
- método
analítico apropriado (validado anteriormente para
a matriz da amostra em estudo);
- as
determinações devem estar propriamente arquivadas
( evitando alguma possibilidade de erro, ou de que as determinações
sejam perdidas, ou de que a amostra tenha sido identificada
de forma incorreta);
- procedimento
experimental completo deve ser arquivado (deve permitir
que outra pessoa possa repetir o trabalho no futuro);
- informe
claro para o cliente (o cliente deve ser capaz de compreender
a linguagem científica).
Ainda,
QUALIDADE somente pode ser alcançada se as análises
forem realizadas por um laboratório, o qual adota uma
gestão completa da qualidade, com SISTEMAS apropriados
para assegurá-la, cita-se como exemplos:
- manutenção
e inspeção dos equipamentos (p.ex.: quando
as balanças foram calibradas?);
- metodologia
adequada para gravar os resultados (não devem ser
guardados como notas em folhas avulsas);
- gestão
profissional dos materiais de laboratório (por quanto
tempo determinados reagentes devem permanecerem estocados?);
- a
equipe deve ser competente para realizar o trabalho e sempre
seguir os princípios da Boa Conduta em Laboratório
(GLP - Good Laboratory Practice, ver Kateman & Buydens,
1993).
Para
que o sistema de qualidade esteja completo e que os erros
sistemáticos também sejam identificados, além
dos eventuais, existe a necessidade de que o laboratório
seja avaliado por verificação externa (Accreditation
and Quality Assurance in Analytical Chemistry, 1994). Assim,
os resultados obtidos estariam sujeitos a comparação
periódica com aqueles obtidos em outro laboratório
autorizado oficialmente.
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Com
relação a sociedade, a química analítica
na sua qualidade de ciência metrológica, passa a
ser cada vez mais importante em transações econômicas
do tipo comercial e ainda contribuindo significativamente na
procura pela qualidade de vida, o que tem resultado num maior interesse
em temas como saúde, segurança e o meio ambiente em
que vivemos. Neste contexto, cita-se como exemplos:
>informes
e discussões/decisões em temas como qualidade das
águas, dos sedimentos, dos solos, do ar, de resíduos;
> evidências em casos de envenenamento ou ingestão
de drogas envolvendo investigações policiais (medicina
forense);
> numa economia globalizada, para fixar preços
no mercado é necessário que haja uma harmonização
de qualidades, não só em nível nacional, mas
também internacional, para que os produtos oferecidos se
refiram as mesmas unidades, métodos e critérios validados
e aceitos por toda a comunidade internacional
Obviamente,
nos exemplos acima descritos, a importância da segurança
da qualidade na determinação dos resultados analíticos
é inquestionável, e o custo de uma análise
química equivocada pode levar a decisões com danos
irreparáveis, tais como:
- em
análises forenses: uma convicção injusta
ou culpados impunes;
- na
indústria e comércio pode levar a distribuição
de mercadorias inferiores, com subseqüente perda de clientes
e/ou perda para os clientes;
- no
fornecimento de água para beber, contaminantes perigosos
podem não ser detectados, ou aparecerem com níveis
maiores do que o valor real;
- em
monitoramento ambiental, erros podem levar a não detecção
de riscos ou a identificação de riscos irreais.
Os custos podem ser financeiros e/ou podem levar a perdas do valor
intrínseco de nossos recursos naturais;
- perda
da confiabilidade, sendo que um resultado errado, principalmente
na indústria e comércio, podem inibir a expansão
da economia regional.
Em
todos estes temas, a validade dos resultados das determinações
analíticas passa a ser fundamental para todos os atores da
sociedade, nos diversos aspectos humanos, comerciais e sociais envolvidos.
No comércio e na indústria, nacional e internacional,
produtores e usuários são cada vez mais dependentes
de resultados analíticos, já que a composição
de produtos freqüentemente é a base para a definição
da natureza das mercadorias, de sua classificação
tarifária e dos preços das mesmas. Assim sendo, a
segurança da qualidade dos dados analíticos passa
a ter uma importância estratégica para o desenvolvimento
do Estado. Na tabela ao lado, descreve-se alguns tópicos
importantes para introdução ao tema dos princípios
básicos do tema qualidade em química analítica
referido.
Desta
forma surgem poderosas redes de laboratórios, principalmente
nos Estados Unidos e Europa, preocupadas com iniciativas para determinações
analíticas validadas (Quality in the Analytical Chemistry
Laboratory, 1998). A preocupação com a validade das
determinações analíticas implica em:
- melhorar
a qualidade das determinações analíticas;
- facilitar
o reconhecimento mútuo dos dados analíticos entre
laboratórios, ou parceiros comerciais e também nas
relações de padronização, normatização,
leis etc.;
- as
determinações devem ser realizadas seguindo protocolos
de métodos validados;
- protocolos
de segurança da qualidade devem ser incorporados ao uso
de materiais de referência certificados, CRM (ver ISO GUIDE
30, 1981);
- caso
dois ou mais laboratórios trabalhem em parceria, devem
solicitar estimações independentes dos seus desempenhos,
bem como suas aprovações dentro dos sistemas de
segurança da qualidade, em sistemas de padronização
oficialmente reconhecidos para licencia-los.
Os
laboratórios preocupados com o reconhecimento oficial de
suas análises, devem transmitir aos analistas e empregados
que eles devem aceitar e seguir os princípios básicos
da GLP nos laboratórios para obter resultados que se enquadrem
dentro das suas competências e habilidades profissionais.
Referências
Bibliográficas
ACCREDITATION
AND QUALITY ASSURANCE IN ANALYTICAL CHEMISTRY. Ed. Gü NZELER,
Helmut, Alemanha, 1994. 266 p.
ISO
GUIDE 30. Terms and definitions used in connection with reference
material, certification of reference material- General and statistical
principles. International Organization for Standardization: Geneva.
Suiça. 1981.
KATEMAN,
G.; BUYDENS, L. Quality control in analytical chemistry. Ed. J.
D. Winefordner. v. 60, John Wiley & Sons, Inc., 1993. 317 p.
PRICHARD,
F. E.; CROSBY, N. T.; DAY, J. A.; Hardcastle, W. A.; Holcombe, D.
G.; Treble, R. D. Quality in the Analytical Chemistry Laboratory.
Ed. NEWMAN, E. J., ACOL, U.K., 1998. 307 p.
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