Femtoquímica
o Prêmio Nobel de Química em 1999
Este
ano, a Academia Sueca Real de Ciências outorgou o Prêmio
Nobel de Química ao Professor Ahmed H. Zewail
(Arthur Amos Noyes Laboratory of Chemical Physiscs, Caltech, USA),
pelos seus estudos pioneiros sobre os estados de transição
de reações químicas fundamentais utilizando
espectroscopia com resolução temporal de femtossegundos.
Quanto dura um femtossegundo (fs) ?
Dura 10-15 segundos ! Esta pequena fração
de tempo está para um segundo com este está para 32.000.000
de anos !! As técnicas empregadas pelo Professor Zewail utilizam
aquilo que poderia ser descrito como a "câmera fotográfica"
mais rápida existente. Através do uso de flashes de
laser ultra-curtos, na escala de tempo em que as reações
ocorrem de fato, é possível
acompanhar átomos e moléculas em slow-motion durante
uma reação, observando o que realmente
acontece quando as ligações químicas quebram
e novas são formadas. No final da década de 70, a
Química Seletiva Induzida por Lasers era um dos tópicos
mais relevantes da Química. Os lasers aperfeiçoados
nesta época permitiam excitar uma dada ligação
química com energia precisa e em tempos ultracurtos, o que
poderia favorecer a quebra seletiva dessa ligação.
No entanto, isto não acontecia por causa da presença
de rápidos mecanismos de redistribuição intramolecular
de energia vibracional. Inspirado nas seqüências de pulsos
múltiplos coerentes em fase, usados na área de ressonância
magnética nuclear, Zewail decidiu explorar a coerência
induzida por lasers em moléculas, através dos análogos
ópticos da ressonância nuclear magnética.
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Ahmed
H. Zewail
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Ahmed
H. Zewail nasceu em Alexandria, Egito, no dia 26 de Fevereiro
de 1946. Obteve os graus de bacharel e de mestre em Química
pela Universidade de Alexandria, Egito. Em seguida foi aos
Estados Unidos, onde obteve o doutorado, também em
Química, na Universidade da Pennsylvania em 1974, sob
a orientação do Prof. Robin M. Hochstrasser
na área de espectroscopia molecular com lasers. A seguir,
fez pós-doutoramento na Universidade da Califórnia/Berkeley,
tendo trabalhado com o Prof. Charles B. Harris no campo dos
transitórios coerentes da ressonância nuclear
magnética, com uma bolsa de estudos da IBM. Em 1976,
tornou-se professor assistente do Instituto de Tecnologia
da Califórnia (Caltech), tendo sido promovido a professor
associado em 1980. Em 1982, tornou-se professor titular de
Físico-Química. Em 1990, foi indicado como o
primeiro ocupante da recém instituída Cadeira
Linus Pauling do Caltech. Em 1998, foi designado Diretor do
recém criado Laboratório de Ciências Moleculares
da Fundação Nacional de Ciência (NSF),
sediado no Caltech. 
Antes
de receber o Prêmio Nobel, já havia sido agraciado
com mais de 25 outros Prêmios e Distinções
Científicas entre os quais: os Prêmios Peter
Debye e Nobel Laureate Signature da Sociedade Americana de
Química (ACS); o Prêmio Chemical Sciences da
Academia Nacional de Ciências dos EUA e o Prêmio
Wolf (Israel). Conta, atualmente, com 364 trabalhos publicados
nas mais respeitadas e conceituadas revistas. É casado
com uma médica que trabalha na área de saúde
pública, na Universidade da Califórnia/Los Angeles,
possui 4 filhos e reside na cidade de San Marino, muito próxima
ao Caltech. Sua família científica consiste
de mais de 150 professores visitantes, pós-docs e alunos
de doutorado. É o primeiro pesquisador de nacionalidade
egípcia a ganhar um Prêmio Nobel em ciência.
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O
trabalho realizado nesta área foi o responsável pela
sua promoção a professor associado no Caltech. Em
1982, Charles V. Shank, então pesquisador dos Laboratórios
Bell, produziu os primeiros pulsos de laser com duração
de dezenas de femtosegundos (um femtosegundo corresponde a milionésimo
de um bilionésimo de segundo). Em 1987, Mark Rosker, recém
doutor orientado pelo Prof. C. L. Tang, da Universidade de Cornell
(EUA), veio trabalhar como pós-doc no grupo de Zewail, trazendo
uma grande experiência em construção de sistemas
eficientes de geração pulsos de laser com largura
temporal na região de femtossegundos. Nessa mesma época,
o estudante de doutorado Marcus Dantus iniciava o projeto de montagem
de um laboratório para realizar experimentos nessa escala
temporal. Com um generoso apoio financeiro de 1,5 milhões
de dólares da Força Aérea Americana foi possível
transformar, em 3 meses, um laboratório de Cristalografia
montado por Linus Pauling, localizado no segundo sub-solo do edifício
Noyes do Caltech, no laboratório devotado a estudos sobre
espectroscopia molecular com lasers mais requintado do mundo. Assim,
em 1987, teve início a Femtoquímica: o estudo de reações
químicas e de seus estados de transição na
escala de tempo de femtossegundos. Este nome surgiu durante um brinde
de champagne entre os professores Ahmed Zewail e Richard Bernstein,
da Universidade da Califórnia/Los Angeles. O primeiro
estudo realizado sobre Femtoquímica foi a fotodissociação
de ICN, sendo observada a quebra da ligação química
I-C no estado de transição da reação,
a qual se completa totalmente em 200 femtosegundos!
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As
perspectivas
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Estudos
de espectroscopia de femtossegundo seguindo o trablho do Professor
Zewail estão sendo intensivamente realizados no mundo
inteiro, usando não somente feixes moleculares, mas
também processos em superfícies (para compreender
e aperfeiçoar catalisadores), em líquidos e
solventes (para compreender mecanismos de dissolução
e reações entre substâncias em solução)
e em polímeros (para o desenvolvimento de novos materiais
de uso em eletrônica). Outro campo importante de estudo
é representado pelos sistemas biológicos. O
conhecimento dos mecanismos das reações químicas
é importante também para a nossa capacidade
de controlar as reações. Uma reação
química desejada está sempre acompanhada de
várias outras reações paralelas e/ou
consecutivas indesejáveis, levando a uma mistura de
vários produtos, o que exige técnicas de separação
e limpeza trabalhosas. Isto poderia ser evitado se a reação
pudesse ser controlada pelo controle das ligações
que vão ser quebradas em primeiro.
A Femtoquímica mudou de maneira fundamental nossa visão
das reações químicas. A partir de uma
descrição fenomenológica relativamente
vaga dada por termos como "ativação"
e "estado de transição", nós
podemos agora "ver" o movimento de átomos
individuais, da forma como os imaginamos. Eles já não
são mais "invisíveis". Nisto reside
a razão pela qual a pesquisa em Femtoquímica
iniciada pelo Professor Zewail tem experimentado um enorme
progresso.
Com a mais rápida câmera
fotográfica do mundo à disposição,
somente a imaginação balizará limites
para os problemas a serem investigados !!!
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Estes
resultados apareceram como uma comunicação rápida
no Journal of Chemical Physics: M. Dantus, M. J.Rosker e A. H. Zewail,
89, 2395 (1987). Desde então as técnicas espectroscópicas
neste regime temporal tem sido aplicadas a diversas moléculas
em vários tipos de reações em fases distintas
e, ainda, a processos biológicos (veja, por exemplo: A.H.
Zewail, Femtochemistry: Ultrafast Dynamics of the Chemical Bond,
Vols. I e II, World Scientific, Singapura (1994). Linus Pauling,
no próprio Caltech, empregando difração de
raios X introduziu a escala de distância nos estudos sobre
estrutura molecular. Por sua vez, Ahmed Zewail, usando pulsos ultracurtos
de luz, introduziu a escala de tempo na investigação
sobre a dinâmica de um único ato químico: a
ruptura de uma dada ligação e os estados de transição
entre reagentes e produtos. É uma coincidência
notável que isso tenha ocorrido no mesmo laboratório,
da mesma Instituição. A área
da Físico-Química que investiga fenômenos ultra-rápidos
tem sido chamada de "Femtoquímica".
As contribuições do Professor Zewail e seu grupo neste
campo iniciaram uma revolução na Química e
ciências afins, uma vez que este tipo de investigação
permite a compreensão e previsão de importantes reações
químicas.
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Quão rápidas são as reações
químicas ?
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As
reações químicas podem, como sabemos, ter as
mais diversas velocidades. Compare um pedaço de lata enferrujando
com uma banana de dinamite explodindo !! O fato comum à maior
parte das reações é o aumento de sua velocidade
com o aumento da temperatura, isto é, quando o movimento
molecular torna-se mais rápido e mais violento.
Por esta razão, os pesquisadores acreditaram por muito tempo
que se uma molécula vai participar de uma reação,
ela precisa primeiro ser "ativada", isto é, alçada
por sobre uma barreira. Quando duas moléculas colidem, normalmente
nada acontece, elas simplesmente se afastam. Mas, quando a temperatura
é alta o bastante, a colisão é tão violenta
que elas reagem entre si e novas espécies podem ser formadas.
Uma vez que se fornece um salto de temperatura suficientemente alto
a uma molécula, ela reage rapidamente, com o quê ligações
químicas são quebradas e novas são formadas.
Isto também se aplica a reações que parecem
ser lentas (lembre da lata enferrujando). A diferença é
que o salto de temperatura ocorre mais raramente numa reação
lenta do que em uma rápida.

A barreira será determinada pelas forças que mantém
os átomos unidos dentro da molécula (as ligações
químicas). Até recentemente, pouco se sabia sobre
o caminho da molécula sobre a barreira e o que a molécula
se assemelhava quando ela está exatamente no topo da barreira,
isto é , o estado de transição.
Svante Arrhenius (Prêmio Nobel de Química em 1903),
inspirado por van't Hoff (o primeiro Nobel de Química, em
1901), apresentou uma fórmula simples para relacionar a velocidade
de uma reação química com a temperatura. Mas
esta se referia a uma "coleção" grande de
moléculas (sistema macroscópico) e tempos relativamente
longos. Foi só na década de 30 que H.Eyring e M.Polanyi
formularam uma teoria baseada em reações de moléculas
individuais em sistemas microscópicos. A hipótese
básica era a de que o estado de transição é
cruzado muito rapidamente, na escala de tempo das vibrações
moleculares. A possibilidade de se realizar experimentos numa escala
de tempo tão curta era algo inimaginável.
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Leia mais:
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01)
M.A. El-Sayed, I. Tanaka and Y. Molin "Ultrafast Processes
in Chemistry and Photobiology" Blackwell Science 1995 306
pp, ISBN 0-86542-893-X.
02) S. Pedersen, J.L. Herek and A.H. Zewail "The
Validity of the Diradical Hypothesis: Direct Femtosecond Studies
of the Transition-State Structures". Science Vol 266 (1994)
1359-1364.
03) A.H. Zewail "The Birth of Molecules" Scientific
American December 1990 p 40-46.
04) V.K. Jain "The World's Fastest Camera"
The World and I, October 1995 p 156-163.
05) Nobel Symposium: Femtochemistry & Femtobiology:
Ultrafast Reaction Dynamics at Atomic-Scale Resolution (Editor:
V. Sundström) World Scientific, Singapore 1996. |
Mas
foi exatamente isso que o Professor Zewail resolveu empreender.
No fim dos anos 80, ele efetuou uma série de experimentos
que levaram ao nascimento da área de pesquisa chamada "Femtoquímica".
Isto envolve o uso de uma "câmera fotográfica"
de altíssima velocidade para "fotografar" as moléculas
no curso real das reações químicas e tentar
obter informações delas exatamente no estado de transição.
Esta "câmera" está baseada em lasers de alta
tecnologia, os quais emitem flashes de luz que duram algumas dezenas
de femtossegundos. O tempo que leva para os átomos em uma
molécula efetuarem um ciclo de vibração é
da ordem de 10 a 100 fs. Pode-se comparar o fato de que as reações
químicas ocorrem na mesma escala de tempo das vibrações
moleculares com dois trapezistas de circo "reagindo" entre
si na mesma escala em que os trapézios vão e voltam.
O que os químicos viram na medida em que a resolução
temporal foi melhorando? O primeiro êxito foi a descoberta
de substâncias formadas ao longo da rota entre a substância
original e a final, os chamados intermediários. Estes eram
moléculas ou fragmentos relativamente estáveis. Cada
melhoria no grau de resolução temporal levava a novas
espécies de uma cadeia reacional, na forma de intermediários
de vida extraordinariamente curta, os quais eram encaixados no quebra-cabeças
do mecanismo da reação investigada.
A contribuição pela qual
o Professor Zewail recebeu o Prêmio Nobel significa que nós
alcançamos o fim deste caminho: nenhuma reação
química ocorre mais rápido. Com a espectroscopia
de femtossegundo nós podemos, pela primeira vez, observar
em "câmera lenta" o que acontece quando a barreira
de uma reação é cruzada e portanto também
entender a base mecanística das idéias de Arrhenius
e van't Hoff, pelas quais foram agraciados com o Prêmio Nobel.
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A Femtoquímica na prática
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Na espectroscopia de femtossegundo, as substâncias originais
são misturadas como feixes moleculares em uma câmara
de vácuo. Então, um laser ultra-rápido injeta
dois pulsos: primeiro, um poderoso pulso de bombeio que atinge a
molécula e a excita para um estado de energia maior, para
depois um segundo pulso mais fraco, chamado pulso de prova (cujo
comprimento de onda é escolhido) detectar a molécula
original ou sua forma alterada. O pulso de bombeio sinaliza o início
da reação enquanto o pulso de prova verifica o que
está acontecendo. Variando-se o (diminuto !!) intervalo de
tempo entre estes dois pulsos, é possível observar
quão rapidamente a molécula original se transforma.
As novas geometrias/configurações/conformações
que a molécula assume quando é excitada - por vezes
passando por um ou dois estados de transição - possuem
espectros que podem servir como "impressões digitais".
O intervalo de tempo entre os pulsos pode ser simplesmente variado
fazendo-se o pulso de prova percorrer um caminho maior através
de espelhos. Não muito maior: a luz percorre 0.03 mm (30
micra) em 100 fs !! Para melhor compreender o que está ocorrendo,
estas "impressões digitais" em função
do tempo transcorrido são então comparadas com simulações
baseadas em cálculos mecânico-quânticos ab-initio
(Prêmio Nobel de Química em 1998) dos espectros e energias
das moléculas em seus vários estados excitados.

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- Os primeiros experimentos
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Um
dos primeiros experimentos realizados pelo Professor Zewail envolveu
o estudo da desintegração do iodocianogênio:
ICN ® I + CN. Foi possível observar o estado de transição,
isto é, o ponto em que a ligação I-C está
prestes a quebrar. A reação inteira se processa em
200 fs !!
Outro
experimento importante envolveu o estudo da dissociação
do iodeto de sódio: NaI ® Na + I. O pulso de bombeio
excita o par iônico Na+I- (o qual possui uma distância
internuclear de equilíbrio de 2.8 Å) para uma
forma ativada [NaI]* na qual a ligação se torna
covalente. Entretanto, suas propriedades mudam quando esta
molécula vibra; quando os núcleos estão
afastados de 10-15 Å, a estrutura eletrônica é
iônica, enquanto que a curta distância torna-se
covalente. Em um dado ponto do ciclo de vibração
(distância ~ 6.9 Å), há uma grande probabilidade
de a molécula decair para o seu estado fundamental
ou dissociar-se em átomos de sódio e iodo.
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Contribuiu:
Prof.Dr. Norberto S. Gonçalves - Depto de Química
- UFSC
fonte:
>artigo dos Profs.Drs. Francisco B.T. Pessine, Depto. de Físico-Química,
Instituto de Química, UNICAMP e Isaac M. Xavier Jr., Depto.
de Estatística, UFPE, Boletim Eletrônico da SBQ,
número121, 24/10/1999.
> http://www.nobel.se/announcement.99/chemistry99.html.
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