|
Idéias
sempre são bem vindas. Algumas são boas. Entretanto,
elas só são interessantes quando se tornam ações.
Mas este, ao que parece, não é o caso da relação
de nosso governo com a ciência. De tempos em tempos, apresentam
idéias; conseguem votos, vendendo estas idéias. As
ações, quando existem, são completamente opostas.
Um exemplo recente é o caso do PROFIX. Você deve ter
visto na televisão, pois o governo fez questão de
anunciar aos quatro ventos: o Brasil estaria chamando e contratando
os doutores que estão no exterior (milhares) para voltar
e trabalhar em solo brasileiro. A idéia, novamente, era boa.
O Programa de Fixação de Doutores do CNPq teria tudo
para ser uma ação inédita do governo em benefício
da ciência. Todavia, como sempre, a ação tomada
foi divergente.
Como
as universidades estão de porta fechada há vários
anos e não há qualquer incentivo para a pesquisa privada,
os cientistas brasileiros não tem nenhuma chance de sobreviver
no Brasil. O PROFIX seria a salvação - e assim foi
visto por milhares de brasileiros que estão nesta situação.
O programa, porém, foi ridicularmente sofista. Atenderia
a, no máximo, 100 doutores, distribuido para todas as àreas
possíveis. Só na química, haviam 116 candidatos.
Mesmo com menos de um mês para inscrição e discreta
publicidade nesta fase, mais de 1100 candidatos se apresentaram
para o PROFIX. O resultado era previsto para até, no máximo,
28/dezembro/2001. Lá por meados de fevereiro o CNPq divulgou,
finalmente, o resultado: mais de um mil doutores ficaram de mão
abanando. Através de critérios obscuros, o CNPq conseguiu
eliminar mais de 90% dos projetos apresentados. Uma façanha.
Entrentanto,
não é este o ponto. A briga foi por migalhas: o pesquisador
era convidado a voltar ao Brasil para trabalhar com um orçamento
máximo de 600 reais mensais dedicados à ciência.
É incrivelmente baixo... só para ter uma idéia,
não dá para comprar 5 g de heptano deuterado, por
exemplo. Mesmo tentando economizar, gasto - em média, cerca
de 5.000 euros mensais em reagentes e material de consumo, aqui
na França. Como uma pesquisa de qualidade equivalente poderia
ser feita com menos de 10% deste valor?
Foi
uma ação de intenção exclusivamente
curricular: está no currículo dos candidatos da situação
que o atual governo, entre outras, criou um programa para fixação
de doutores no Brasil. Você verá, breve, no horário
eleitoral gratuíto. Poucos saberão, entretanto, que
não passou de uma obra de Profixão científica...
Fixados, sim, pois cairão duros, de fome...
Outro
exemplo (também em cartaz nos próximos horários
eleitorais) foram as vagas abertas nas universidades, para contratação
de professores. Foram menos de 2.000 vagas, para todo o Brasil.
A UFSC ganhou, no total, 48 vagas. Como temos 60 cursos, foi menos
que uma por curso. Desde que as portas das federais foram fechadas,
vários professores se aposentaram, alguns morreram e outros
abandonaram o Brasil, pois queriam fazer ciência. As vagas
existem, tem sido tapadas com substitutos - seres proibidos de pesquisar
- e a ciência pena. Por falta de máquinas, por falta
de reagentes e, mais essa, por excomungação dos cientistas.
O
QMCWEB desta edição apresenta uma de suas melhores
entrevistas: Dr. Clifford Bunton, um dos mais renomados e influentes
cientistas da atualidade. Um provável ganhador do Nobel.
E, na sua entrevista, Dr. Bunton é capaz de sintetizar a
situação da ciência brasileira com poucas palavras:
os laboratórios estão doentemente-equipados e seriamente
pobres. Não suficiente, as bibliotecas não têm
livros. É triste, mas é a dura realidade.
O
SPIN.quimica está sendo um sucesso: muitos trabalhos já
foram enviados, do Brasil inteiro. Se você possui um (ou mais)
trabalho de química em qualquer área (não precisa
ser inédito), mostre ao Brasil. Afinal, você não
quer que seus resultados permaneçam escondidos em sua gaveta.
Mas corra: a inscrição encerra no dia 31 deste mês!!!
Dentre outras novidades, o QMCWEB apresenta um artigo enviado por
um sujeito que pode ser considerado como louco ou como gênio
- uma das teorias mais absurdas e mais chocantes já lida
por este editor. Tão "diferente" que o QMCWEB não
podia deixar de mostrar aos seus leitores. E, como uma provocação,
testar até onde vai a nossa certeza sobre o que sabemos.
Quem vai jogar a primeira pedra?!
E o tema principal desta edição foi escolhido pelo
eleitor: a maioria optou pelas "micelas poliméricas".
E o resultado não poderia ter sido outro, já que este
novo sistema de polímeros está sendo largamente utilizado
nas indústrias e nos centros de pesquisa. E o QMCWEB tem
a obrigação de atender o seu leitor. Afinal, é
para eles que nós existimos!
Bom
proveito do QMCWEB #53!
editor@qmcweb.org
|