Quando
os LIVROS de Química estão ERRADOS.
Nem
sempre o livro-texto diz a verdade. QMCWEB apresenta alguns
exemplos.
|
Na Sala.de.Aula
desta edição, o QMCWEB apresenta um alerta: o bom
professor de Química deve estar atento aos sacrilégios
cometidos por muitos dos livros de Química disponíveis
no mercado.
Quando seguimos fielmente as doutrinas pregadas nos livros-textos,
estamos correndo sérios riscos de acabar falando besteiras,
ou nonsenses. Nem sempre tudo o que o autor nos diz está
correto - e nós, graças à formação
que possuímos, somos aptos a desviar destas armadilhas. Ou
não somos?!
Nesta reportagem, QMCWEB apresenta alguns exemplos de erros comumente
vistos mesmo nos melhores livros de Química. Mas não
se iluda: esta é apenas a ponta de um longo iceberg...
|
Patinação
no gelo x Diagrama de Fase da água
|
|
O
QMCWEB já publicou um artigo sobre a água -
um líquido com várias propriedades bizarras.
Uma delas é o fato do seu sólido, o gelo, ter
um volume molar 10% maior do que o seu líquido. Uma
das consequências facilmente observadas é que
o gelo boia sobre a água, por ser menos denso. Outra
consequência é que o aumento de pressão
sobre o gelo leva-o para a fase de menor volume; no caso,
a água líquida. Uma rápida olhada no
diagrama de fases da água mostra que, ao contrário
da grande maioria das substâncias, o aumento de pressão
sobre o estado sólido favorece o estado líquido,
isto é, diminui a temperatura de fusão do gelo.
É
aí que entra o conceito errado comumente visto em livros
de ensino médio: autores clamam esta propriedade para
justificar o fato de que patinadores conseguem deslizar sobre
o gelo. O aumento da pressão, causada pelo peso do
patinador sobre uma fina lâmina de gelo, provocaria
a diminuição da temperatura de fusão
do gelo e, momentaneamente, uma delgada camada de líquido
entre o gelo e as lâmina de seus patins. Em geral, aceitamos
este exemplo sem maiores problemas, e acabamos utilizando-o
em sala de aula com nossos alunos.
Entrentanto, tudo isto é um engano tremendo...
Vamos
supor que o patinador pese 75 Kg, e que a lâmina do
skate tenha 3mm de largura e 20cm de comprimento. Assumindo
g=10m/s2, temos que a pressão
exercida por este patinador é de cerca de 12 atm. Parece
bastante, mas se computarmos isto no diagrama de fases da
água, veremos que para a diminuição de
apenas 1 oC são necessárias
121 atm de pressão! Ou seja, com 12 atm, apenas, a
diminuição é de alguns décimos
de grau celsius. Como a pista de patinação se
encontra, geralmente, a temperaturas abaixo de -10 oC,
este gelo não irá derreter por esta causa. Ou
seja: o efeito da pressão não é o culpado
pelo sucesso da patinação sobre o gelo.
Os livros estão errados...
Não
obstante, os patinadores, de fato, patinam sobre o gelo. Deve
haver, então, uma outra razão para explicar
este fenômeno. Os cientistas se debateram muito para
conseguir explicar esta observação, até
que, recentemente, um grupo de químicos descobriu um
fenômeno hoje conhecido como "surface melting",
ou derretimento superficial.
O
gelo possui uma disposição bem orientada das
moléculas de água, quase cristalino. Entretanto,
este arranjo é muito diferente na superfície,
próximo à interface com o ar. Como não
há moléculas de água acima desta linha
superficial, as moléculas da superfície distorcem
o arranjo cristalino na tentativa de prolongar o contato com
as moléculas inferiores. Este comportamento é
chamado de "surface reconstruction". Já foi
comprovado experimentalmente que as moléculas da superfície
de um sólido podem ir ao estado desorganizado (líquido)
a temperaturas inferiores do resto do sólido - este
é o surface melting. O contato entre duas superfícies
parece aumentar esta anomalia - como no caso da lâmina
do skate. Além disso, existe a fricção
do skate sobre o gelo, que pode gerar calor suficiente para
fundir as moléculas da superfície.
Mais informações sobre este fenômeno podem
ser encontradas em:
J. G. Dash, H. Y. Fu, and J. S. Wettlaufer, "The premelting
of ice and its environmental consequences," Rep. Prog. Phys.
58, 115 (1995).
|
|
Q10:
A velocidade da reação
NÃO dobra se T = T + 10
|
|
Este
é um dos erros mais comuns e mais propagados da história
da Química. Praticamente todos os livros de Química
Geral apresentam esta afirmação: se a temperatura
de uma reação aumentar em 10 oC,
a velocidade será igual ao dobro da inicial. Os livros
de bioquímica chegam a "inventar" um termo
para este equívoco: Q10,
referindo-se a uma (pseudo) constante do aumento da velocidade.
Entretanto, esta afirmação é, infelizmente,
um grande erro. Como veremos, a vida "química"
não é, assim, tão simples...
Para começar, vejamos a equação de
Arrhenius.
A velocidade de uma reação do tipo A + B ->
produtos pode ser expressa empiricamente por:
velocidade
= k[A]x[B]y
onde
k é a constante de velocidade, A] e [B] são
as concentrações molares das espécies
reagentes A e B e x e y são as ordens
da reação em relação a A e B.
As concentrações molares, em regimes diluídos,
praticamente não mudam com o aumento de temperatura:
o termo que muda é a constante k. Por isso, todos os
experimentos para a determinação de k devem
ser feitos a temperatura constante.
Arrhenius descreveu a dependência de k em relação
à temperatura por:
ln
(k2/k1) = (Ea/R)
(1/T1 1/T2)
onde
k2 e k1
são as constantes de velocidade nas temperaturas T2
e T1, em Kelvin. Ea
é a energia de ativação para a reação,
dada J.mol-1, e R é a constante
dos gases ideais, 8.314 J K-1 mol-1.
Nenhuma destas constantes muda com a variação
da temperatura. O termo criado pelos bioquímicos, Q10,
refere-se à relação k2/k1;
para os bioquímicos, esta relação deveria
ser sempre igual a dois cada vez que T2
= T1 + 10.
Entretanto,
basta olhar para a equação de Arrhenius que
rapidamente percebemos duas particularidades:
a) k2/k1
depende da Ea
b) k2/k1
depende da temperatura, isto é, Q10
não é constante.
Vamos exemplificar, fazendo um pouco de cálculo. Inicialmente,
iremos encontrar o valor de Ea
para uma reação cuja velocidade dobre (k2/k1
= 2) para uma variação de temperatura de T1
= 0 oC a T2
= 10 o C.
Para
a determinação de Ea,
então, utilizaremos k2/k1
= 2, T1 = 273 K, T2 =
283 K, R = 8.314 J K-1 mol-1:
| Arrhenius: |
ln
(k2/k1) = (Ea/R)
(1/T1 1/T2) |
| Portanto::
|
ln (k2/k1) / (1/T1
1/T2) = Ea/R |
| Substituindo
os valores: |
(8.314
x ln 2) / (1/273 1/283) = Ea |
| e
então: |
(8.314
x 0.693) / (1/273 1/283) = Ea |
Facilmente,
mostramos que Ea = 44,500 J mol-1
= 44.5 kJ mol-1.
Agora, utilizando este valor de Ea,
vamos calcular qual seria o valor de k2/k1
para uma outras variação de temperatura na faixa
de 10 oC.
ln (k2/k1) = (44,500/8.314) (1/T1
1/T2)
|
T1/K
|
T2/K
|
k2/k1
|
|
273
|
283
|
2.00
|
|
373
|
383
|
1.45
|
|
473
|
483
|
1.26
|
Como
vemos, Q10 não é
constante e nem sempre é igual a dois.
Mesmo sendo tão óbvio, livros teimam em ensinar
a existência de uma constante fantasma chamada Q10.
Cabe a nós, professores, desmascarar estes autores...
|
|
Solução
neutra não significa pH = 7 !!!
|
|
Se
perguntarmos a qualquer aluno da sala (ou mesmo a alguns professores)
em qual pH temos uma solução aquosa neutra,
certamente ouviremos: pH=7. Este conceito, equivocado, vai
além das salas de aula de química e, mesmo nas
ruas, somos capazes de encontrar pessoas que "sabem"
que com um pH=7 qualquer solução ou líquido
é neutro.
Vejamos:
uma
solução aquosa é neutra quando a concentração
de íons hidrônio é exatamente igual à
concentração de íons hidróxidos.
Ou seja:
[H3O+]
= [-OH]
Na
água, temos a seguinte relação entre
estas duas entidades, dada pela auto-ionização:
[H3O+]x[-OH]=
Kw
Como
pH = -log[H3O+],
podemos assumir que, numa solução aquosa a neutralidade
é atingida quando [H3O+]
= (Kw)1/2,
ou seja:
pH
= -(logKw)/2
É
exatamente neste ponto a origem da generalização
equivocada. O valor de Kw depende,
e muito, da temperatura da solução. Ocorre que,
a 298 K, Kw = 1,0 x 10-14
M2. Neste caso, de fato, o pH de
uma solução neutra é igual a 7,0. Todavia,
basta mudar a temperatura, e o pH da solução
neutra também muda.
Exemplo:
O valor de Kw é 2,5 x 10-14
a 37oC. Qual é o pH de uma
solução aquosa neutra, nesta temperatura?
Resposta:
pH = 6,8
Em
temperaturas maiores, o pH será menor ainda!
Portanto,
tome cuidado ao dizer aos seus alunos que pH=7 é neutro...
eles podem ser leitores do QMCWEB!
|
Estes
são apenas alguns exemplos... existem ainda muitos outros
enganos nos livros. Mas fique tranquilo: nós, do QMCWEB,
estamos de olho!
Education
is what you have left when you have forgotten everything you learned
in school.
Albert Einstein, 1936
|