Os Jogos Olímpicos estão chegando. Todos os atletas já estão preparados: muitos submeteramm-se a longos e cansativos treinamentos; outros, porém, foram somente à farmácia.

Os jogos olímpicos se tornaram um negócio gigantesco. O grande volume de dinheiro gerado pelos patrocinadores e os atrativos louro$ para os vencedores estão tentando os atletas a tomarem a via mais curta para o topo. E aí que entram as drogas: um meio fácil, mas ilícito, de aumentar a capacidade aeróbica, metabólica, força física e massa muscular dos atletas.


Preocupados, os órgãos nacionais e internacionais de esporte já adotaram várias medidas preventivas. Há vários anos, os atletas são submetidos a exames de sangue e urina, capazes de detectar as drogas mais comuns. Nestas olimpíadas, porém, o
salto dos atletas será mais longo: novas e potentes drogas, "invisíveis" aos atuais exames, também estão indo para Sydney.


Cartão VERMELHO!
Na última Copa do Mundo de futebol, a FIFA submeteu os atletas a um rigoroso controle. Várias substâncias eram proibidas, organizadas em uma lista como abaixo:
a.Estimulantes (efedrina, cocaína, dimetamfetamina, cocaína, cafeína(se acima de 12 ug/l, na urina), fenilpropanolamina, etc.)
b.Analgésicos narcóticos (metadona, morfina, heroína, fenazocina, etc.)
c.Esteróides Anabólicos (colesterol, nondrolona, testosterona, bolasterona, etc.)
d.Diuréticos (bumetanida, clopamida, mannitol, etc.)
e.Hormônios glicoprotéicos e peptídicos (gonadotrofina, EPO, IGF-1)
f.Outras drogas (THC e canabinóides)

A pegunta é: como detectar se um atleta realmente consumiu alguma droga? O exame clássico é a análise no cromatógrafo, onde a presença e concentração de certas substâncias é detectada e comparada com padrões existentes. Cromatógrafo de Gás acoplado com Espectrômetro de Massa (GC-MS)Para uma melhor precisão, o cromatógrafo pode ser acoplado com um espectrômetro de massa. O teste funciona muito bem com drogas como anfetaminas, cocaína, e derivados do ópio. A presença de qualquer substância estranha ao organismo, como um produto sintético ou derivado de planta, já é um indício de ato ilícito. O problema surge quando o atleta consome drogas que são os mesmos, ou muito similares, compostos que ocorrem naturalmente no corpo humano: hormônios de crescimento, esteróides anabólicos e a sensação do momento - eritropoetina - EPO.

Você sabia?! O EPO é uma substância aprovada, pelo FDA para o tratamento de anemia em pacientes infectados com HIV ou com insuficiência renal crônica. A eritropoetina é um hormônio natural secretado pelos rins que atua na medula óssea para estimular a formação de hemáceas. É somente é receitada para os pacientes que possuem concentração endógena menor do que 500 ul/ml.

O que são Hormônios Esteróides?
Um grupo de hormônios que pertencem a uma classe de compostos químicos conhecida como "esteróides"; eles são secretados por 3 "glândulas estereodais" - o córtex adrenal, testículos e ovários - e, durante a gravidez, pela placenta. Todos são derivados do colesterol, e são transportados através da corrente sanguínea às várias células dos vários tecidos no organismo, onde atuam regulando uma longa série de funções biológicas.

cortisol

A glândula adrenal produz os hormônios esteróides adrenocorticais, que são os glucocorticóides e os mineralcorticóides. O cortisol, por exemplo, influencia vários processos, tal como a formação de glucose a partir de amino ácidos e ácidos graxos, e a deposição de glicogênio no fígado. Também auxilia a manter a pressão sanguínea normal, e tem atividade anti-inflamatória e imunosupressiva.



testosterona

Os hormônios esteróides andrógenos são os hormônios sexuais masculinos. O principal andrógeno é a testosterona, que é produzida principalmente pelos testículos e, em menor quantidade, no cortex adrenal e nos ovários. Os hormônios andrógenos, além de atuarem nas funções relacionadas à reprodução e estimulação das características sexuais do macho, também atua na produção do esqueleto ósseo e na produção de hemáceas.
Por isso, estes esteróides são consumidos por atletas: eles provocam o aumento da massa muscular e da retenção de água pelo organismo. Apresentam, entretanto, sérios efeitos colaterais, incluindo infertilidade e cardiopatias.


estradiol

Os estrógenos são um dos dois tipos de hormônios sexuais femininos, e são secretados principalmente pelos ovários e, em menor quantidade, pelas glândulas adrenais e pelos testículos. O estradiol é o mais potente dos estrógenos: atua nas funções ligadas à reprodução e nas características sexuais femininas. A produção deste hormônio diminui drasticamente após a menopausa.

As progestinas - das quais a progesterona é a mais importante - são o outro tipo de hormônio sexual feminino. Eles agem principalmente na gravidez.


progesterona

Tanto os estrógenos como as progestinas são secretadas periodicamente durante a menstruação: no ciclo menstrual, o folículo ovariano que se desprende do ovário (o corpo amarelo) produz a progesterona, sem a qual a gravidez não aconteceria, pois o hormônio prepara o tecido ovariano para receber a implantação de um óvulo fertilizado. Se isto ocorrer, a placenta se torna a principal fonte de progesterona. Durante a gestação, as altas doses de progesterona suprimem a ovulação, previnindo uma segunda fecundação.

Os contraceptivos orais (pílulas) contém progestinas e estrógenos estruturalmente modificados, capazes de, tal como a progesterona, impedir a ovulação e, obviamente, evitar uma gravidez indesejada.

Os químicos, então, brincam de detetive, e criam novos métodos para pegar os usuários. Um exemplo de sucesso é a técnica atualmente empregada para se determinar os esteróides anabolizantes. A criatividade dos químicos superou o impasse inicial: pelo cromatograma, é possível se determinar a presença e a concentração de testosterona, por exemplo. Mas como saber se o atleta realmente ingeriu doses extras deste hormônio, ou se esta é somente a sua produção endógena? A solução encontrada foi comparar a concentração de testosterona com a de seu metabólito biológico, a epitestosterona. Se fosse diferente da razão encontrada normalmente, seria indício de doping. Atualmente, uma razão testo/epitesto maior do que 6 é ilegal.

Uma outra estratégia é determinar, para uma particular substância, o número de isótopos 13C e 12C. A idéia baseia-se no fato de que nos compostos naturais, a razão 13C:12C é diferente dos sintéticos.

O consumo de EPO, entretanto, é ainda algo de difícil detecção. Os atletas tomam para aumentar o número de glóbulos vermelhos e, consequentemente, aumentar sua capacidade aeróbica. Como é uma substância natural, é virtualmente indetectável. Atualmente, o teste baseia-se na concentração de hemáceas no sangue do atleta. Vários resultados positivos, entretanto, tem sido contestado nos tribunais, por alegação de que hemácea não é uma substância ilegal!

hemáceasUma outra tática, mais cruel, para aumentar o número de hemáceas e a capacidade aeróbica dos atletas vem sendo adotada por vários técnicos: os atletas passam longos períodos de treinamento em câmeras de descompressão, com o ar rarefeito. Os mecanismo para captação de oxigênio pelo sangue são, então, melhorados e maximizados. Segundo a opinião de médicos e dirigentes do IOC (comitê olímpico internacional) esta estratégia não é considerada doping.

Existem cinco classes de substâncias dopantes: estimulantes, narcóticos analgésicos, diuréticos, esteróides anabolizantes e hormônios peptídicos.
Os estimulantes visam diminuir a sensação de fadiga. São usados por praticantes de esportes coletivos, como basquete, vôlei e futebol. Também servem para atletas de provas de longa duração, como a maratona e a marcha. Fazem parte desse grupo as anfetaminas, a efedrina e a cafeína. A cocaína, que também integra o grupo, não é considerada doping, já que provoca mais prejuízos do que benefícios ao desempenho físico. Continua proibida por uma questão de marketing social: haveria um escândalo e uma forte pressão da sociedade se o IOC resolvesse retirá-la da lista de substâncias proibidas no esporte. O mesmo ocorre com a maconha.
Os narcóticos analgésicos não são usados para melhorar o desempenho mas para aliviar a dor. São empregados em quase todas as modalidades.
Os diuréticos atendem a duas finalidades: servem para perder peso (no caso de modalidades divididas em categorias por peso, como boxe, judô e levantamento de peso), ou para mascarar o doping - ao aumentar o volume de urina, o diurético faz com que os traços de substâncias apareçam mais diluídos no exame.
Os esteróides anabolizantes, são hormônios sintetizados (ver quadro ao lado) e servem para aumentar a massa muscular. São utilizados em esportes que exigem força, explosão e velocidade, como levantamento de peso e atletismo.
Os hormônios peptídicos são substâncias naturais cuja molécula é formada por dois aminoácidos ligados (um peptídeo). Sua função principal é a fixação de proteínas no organismo. São utilizados em esportes de potência ou força pura, como arremesso, ciclismo, remo e levantamento de peso.
E, finalmente, o
s betabloqueadores, que não fazem parte de nenhum desses grupos mas são largamente difundidos. Atuam sobre a circulação provocando a diminuição dos batimentos cardíacos. É a droga de esportes de alta precisão, como tiro ao alvo e arco e flecha.

Até o final deste mês, mais de 230 atletas passarão por uma bateria de exames anti-doping: todos os brasileiros convocados para Sydney passarão pelo controle de drogas. Os exames já começaram no Rio Grand Prix e no Campeonato Ibero-Americano de Atletismo, realizados nas últimas duas semanas, no Maracanã. Entre os testes estão atés exames de sangue, o único método capaz de detectar a eritropoeitina, a EPO, uma substância proibida não encontrada nos testes comuns de urina. O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) não quer correr o risco de ter casos positivos na Austrália.

Morfina no pão: em várias ocasiões, jogadores brasileiros foram flagrados utilizando drogas. Um acontecimento bizarro foi o desfecho do caso de um jogador do Internacional, de POA, em 1997. A origem do doping do jogador Ânderson, constatado em exame da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) que descobriu morfina na urina, foi, segundo alegado por advogados do mesmo, o consumo de três a quatro cinco pãezinhos com cobertura de sementes de papoula, vendidos livremente em padarias e consumidos pelo atleta no Hotel Transamérica, antes do jogo com o Santos. A nutricionista do hotel confirmou a existência deste pão no hotel. A morfina pode surgir na urina em consequência, também, de ingestão de sementes de papoula, como garantiu o médico Eduardo De Rose, coordenador da comissão anti-doping do Comitê Olímpico Internacional, na época. A quantidade detectada foi de mil nanogramas por mililitros, cinvo vezes maior do que o mínimo para acusar um exame de doping positivo. A justiça desportiva acatou a alegação e suspendeu o castigo ao jogador.

Em Sydney, além dos Jogos Olímpicos, estará sendo travada uma outra batalha: a dos químicos analíticos contra as indústrias farmacêuticas. Para novas e "invisíveis" drogas, serão criados novos e "reveladores" testes. Como todos os outros jogos, o vencedor será o mais hábil: vamos torcer para que a medalha de ouro seja para os químicos... :)

Saiba mais!
>Site oficial dos Jogos Olímpicos em Sydney
>Agência Australiana de controle de doping
>IOC - Comitê Olímpico Internacional
>Hormônios Esteróides
>Lista das Substâncias proibidas pela FIFA
>Por que proibir o Doping?
>A história do Doping
>A química dos hormônios adrenocorticóides

 


VoltaVoltacriação: minatti

Revista eletrônica do Departamento de Química - UFSC
A química... ...a ciência... ...pela internet. QMCWEB: A página da Química

FLORIANÓPOLIS | Química - UFSC | QMCWEB: Ano 4

home -> QMCWEB.org