|
A
leptina é um
hormônio protéico específico
produzido e secretado pelo tecido adiposo, que funciona como um
"adipostato", referindo-se à Teoria Lipostática,
que prediz que a composição e o peso corporais
em humanos são determinados por interações
entre fatores genéticos, ambientais, comportamentais e
sociais e da resposta a um sinal periférico produzido
em quantidades proporcionais ao tecido adiposo no organismo.
A existência desse fator circulante, que aumenta
com os estoques de energia e age no cérebro para inibir
a ingestão de alimentos e as reservas no tecido adiposo,
foi descoberta após mutações
genéticas (Figura 1) denominadas
por obese (ob) e diabetes (db). Baseado nesses
estudos foi sugerido que a mutação ob estava
relacionada à produção de um fator circulante
e a db com a resposta a esse mesmo fator. Assim, o fator circulante,
produto do gene ob, foi chamado
leptina (do grego leptos que significa magro),
porque este mostrou ser capaz de diminuir o peso corporal
e a massa de tecido adiposo quando injetado em camundongos.
Figura
1: Os dois camundongos apresentam a mesma idade, sendo
que o da esquerda apresenta deficiência na produção do hormônio
leptina.
|
A descoberta da leptina tem ajudado a esclarecer o papel
dos adipócitos como sistema endócrino
e de que modo ocorre a sinalização para a ingestão
ou não de alimentos, bem como, a regulação
do metabolismo energético. Assim, a coordenação
do balanço energético e do peso corporal envolve
uma regulação entre a ingestão de alimentos
e gasto de energia em resposta a sinais agudos (insulina,
catecolaminas como a adrenalina) e rônicos (gravidez,
desnutrição, inflamações, caquexia
e leptina).
A
leptina é sintetizada como um peptídeo de 167 aminoácidos
(aa), transportada para a circulação sanguínea
com apenas 146 aa e uma massa molecular de 14-16 kDa. A cristalografia
revela quatro hélices com estruturas semelhantes às
das citoquinas, tais como as interleucinas (Figura 2).

Figura
2: A leptina apresenta-se
como um feixe de quatro a-hélices
(A a D). |
SÍNTESE E REGULAÇÃO
A
leptina é produzida principalmente
no tecido adiposo, embora também possa ser encontrada
(em poucas quantidades) no epitélio intestinal, placenta
(funcionando com um fator de crescimento para o feto, por sinalizar
o estado nutricional da mãe), leite materno, músculo
esquelético, gástrico e cérebro.
É codificada por um gene que tem três exons
e dois íntrons (Figura 3). A região
promotora tem elementos como TATA box, C/EBP (região de
ligação à proteínas), GRE (elemento
responsivo a glicocorticóides) e CREB (elemento de ligação
à proteínas responsivo ao AMPc). A
transcrição e a tradução ocorrem no
tecido adiposo, placenta e trato gastrintestinal, onde a razão
de produção é diretamente relacionada à
massa de tecido adiposo. Em um indivíduo com peso corporal
normal, a leptina está mais correlacionada com a massa
de gordura absoluta do que com o índice de massa corpórea
(BMI) ou percentagem de gordura corporal.
Figura
3: Síntese da leptina. O gene da leptina consiste de
três exons e dois introns. O gene é transcrito por RNAm
que codifica um pró-hormônio de 167 aa. A sequência sinal
contém 21 aa e é removida para a liberação da leptina na
corrente sanguínea.
|
Os
níveis de leptina circulantes parecem estar diretamente
relacionados com a quantidade de RNAm para leptina no tecido adiposo.
Além disso, vários fatores metabólicos
e endócrinos contribuem para regular a transcrição
dos genes da leptina em adipócitos. Por exemplo, ocorre
diminuição
de leptina em resposta a baixos níveis de insulina,
havendo uma relação diretamente proporcional entre
as concentrações desses hormônios.
Glicocorticóides
(como o cortisol), infecções agudas e citoquinas
inflamatórias; aumentam os níveis de leptina mas,
baixas temperaturas, estimulação adrenérgica,
hormônio do crescimento (GH), hormônios tireoidianos,
melatonina, e fumo têm a propriedade de diminuir os níveis
de leptina, como observado na Tabela 1.
Há
também o efeito do sexo, pois com a mesma quantidade
de gordura corporal mulheres
secretam duas vezes mais leptina que homens. A leptina
humana tem uma meia-vida de aproximadamente 25 min e é
a mesma em indivíduos obesos e com peso corporal normal.
Essa meia-vida curta na circulação é determinada
pelo clearence renal mediado por filtração
glomerular.
Tabela
1: Influência de fatores orgânicos e ambientais nos
níveis de leptina.

|
Ingestão
de alimentos x gasto de energia
O papel da leptina como hormônio
antiobesidade é essencialmente derivado de suas
ações como diminuidor do apetite e estimulador
do gasto de energia. A propriedade inibidora do apetite deve-se
ao mecanismo de sinalização desta no hipotálamo,
estimulando a síntese de neuropeptídeos anorexigênicos
como POMC (Proopiomelanocortina), a-MSH (Hormônio
Estimulante de a-Melanócitos), CRH (Hormônio
Liberador de Corticotropina) e CART (Transcrito Regulado
por Cocaína e Anfetamina) que diminuem a ingestão
de alimentos pela sensação de saciedade. Os neuropeptídeos
anorexigênicos, por sua vez, inibem a síntese de
neuropeptídeo Y (NPY), que estimula a ingestão
de alimentos, inibe a termogênese (liberação
de energia na forma de calor sem produção de
ATP) e é diminuido por altos níveis séricos
de insulina, promovendo aumento da lipogênese, síntese
proteica e armazenamento de glicose.
A
propriedade de alterar o gasto de energia, deve-se ao fato
da leptina estimular as ações da norepinefrina (NOR)
e a lipólise no tecido adiposo, levando à termogênese.
Por estimulação do sistema nervoso simpático,
a leptina causa aumento na liberação de NOR
que age em adipócitos por sinalização via
AMPcíclico e proteína quinase A (PKA), estimulando
a transcrição do gene para proteínas desacopladoras
da fosforilação oxidativa (UCPs). As UCPs formam
canais que permitem a entrada de prótons na matriz mitocondrial
sem passar através do complexo ATP sintase, permitindo
a oxidação contínua de ácidos graxos
sem síntese de ATP, com dissipação de energia
na forma de calor. Isto leva a um aumento no gasto de energia
no tecido adiposo, com estímulo da lipólise.
|
Bibliografia
|
- ASHIMA,
R. S., FLIER, J. S. Adipose tissue as an endocrine organ.
TEM, v.11, n.8, p.327-332, 2000.
-
CEDDIA, R. B., Jr. W. N. W., LIMA, F. B., CARPINELLI,
A.R., CURI, R. Pivotal role of leptin in insulin effects.
Braz. J. of Med. and Biol. Res., v.31, p.715-722,1998.
- CONSIDINE,
R. V., CARO, J. F. Leptin and the regulation of body weight.
Int. J. Biochem. Cell Biol., v.29, n.11, p.1255-1272,
1997.
- DEVLIN,
T.M. Textbook of Biochemistry with clinical correlations,
1997, 4 ed., John Wiley & Sons, New York.
- HOUSEKNECHT
K. L., PORTOCARRERO, C. P. Leptin and its receptors: regulators
of whole-body energy homeostasis, v.15, n.6, p.457-475,
1998.
- LEHNINGER,
A. L., NELSON, D.L., COX, M.M., Princípios de Bioquímica.
1995, 2 ed., Sarvier, São Paulo.
- MARZOCCO,
A., TORRES, B.B., Bioquímica Básica. 2 ed.,
1999, Guanabara Koogan, Rio de Janeiro.
- PERRONE,
L., Del GIUDICE, E. M. Genetic regulation of appetite
and fatness:current knowledge and future prospectives.
Nutr. Res., v.18, n.9, p.1631-1648, 1998.
- PROLO,
P., WONG, M. L., LICINIO, J. Leptin. Int. J. of Biochem.
& Cell Biol., v.30,p.1285-1290,1998.
- SCHUBRING,
C., BLUM, W. F., KRATZSCH, J., DEUTSCHER,J., KIESS, W.
Leptin, the ob gene product, in female health and disease.
Eur. J. of Obs. & Gin., v.88, p.121-127, 2000
|
|
Os
autores:
|
Este
artigo foi uma colaboração de:
> Daniele Araújo, Formada em Farmácia
e Bioquímica/ UFMA; atualmente Mestranda no departamento
de Bioquímica, Instituto de Biologia, Unicamp;
>José Antônio da Silva, Formado
em Biologia/ UFMS, atualmente Doutorando no departamento
de Bioquímica, Instituto de Biologia, Unicamp.
>Leonardo Fernandes Fraceto, Químico/
UNICAMP; atualmente Doutorando no departamento de Bioquímica,
Instituto de Biologia, Unicamp. |
|